quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Motivo incontornável 2

A meio do teste.
(eu simplesmente odeio que eles interrompam o silêncio da prova!!!! Irrita-me solenemente, pelo que fico logo sem disposição nenhuma para o que me vão dizer a seguir...)

Resultado de imagem para kid with a falling tooth, clipartTíxEr, posso ir à casa de banho lavar a boca?

Eu,
a leste do paraíso,
a anos luz da faixa etária a que agora me dedico,
eu,
sem pescar mesmo nada da poda:

"e por que cargas de água hás-de tu ter de ir lavar a boca a meio de um teste?"

Caiu-me um dente e sabe a sangue!

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Motivo incontornável

Resultado de imagem para coelho ladrão de livros, clipart"TíxEEE-E-E-E-E-E-R!"

Logo à entrada, antes mesmo de eu conseguir sequer abrir a porta.

"Diz, João!"

"Eu não estudei nada para o teste..."

Eu a preparar-me para o discurso do só-te-lembras-de-santa-bárbara-quando-troveja-e-agora-que-te-estou-a-entregar-o-enunciado-é-que-te-ocorre-o-estudo...

E ele, antes mesmo de eu abrir a boca:

"é que o carro da minha mãe foi assaltado!!!! 
e eu tinha lá a mochila com as coisas ...
e também tinha os livros de inglês ...
e eles levaram tudo e...
e...
e eu não pude mesmo estudar..."

domingo, 3 de dezembro de 2017

O LIVRO MÁGICO

Foto de O Livro Mágico - Musical.

É evidente que eu aconselho este espectáculo musical!!!

Mas: atenção! 
Faço-o, agora, após ter ido assistir à antestreia e ter usufruído de momentos deliciosos com a criançada da família. 
Não se trata, portanto, de assinar um cheque em branco. 
É que não é apenas o texto da mana. 
A interpretação e a encenação primam pela qualidade. 

Vi e  gostei MUITO! Filiações à parte.

Adoro musicais e, aqui, são as canções da Disney com que todos crescemos! 
Tão bom passar o espectáculo a cantarolar e a sonhar!
Depois aquela protagonista, a Maria, homónima da minha e com ela venturosa de audácia, determinação, sonho infantil e argúcia. 
Aquela rivalidade fraterna, cómica em palco, mas que nos atormenta na vida real. Acreditem pais, vão gostar de ver!
Viaja-se pelo mundo da fantasia e perde-se a noção do tempo. 
Apetece ir para lá para o palco dançar e cantar com eles!!!
O espectáculo está extraordinariamente bem conseguido e, certamente, fará as delícias de miúdos e graúdos!
Parabéns a toda a equipa e votos de muito sucesso!

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Miúdos com sorte

Resultado de imagem para mickey  dentist"Tíxeeer!"
Como de costume, a meio de um exercício, quando lhes dá na cabeça.
"Yes?"
"Olha, eu hoje vou sair mais cedo porque a minha mãe vem-me buscar para irmos ao dentista."
"Está bem. Órait! Se tem mesmo de ser, depois acabas for homework! You finish em casa at home, ok?"

(sim, eu sei, pareço uma turista britânica de férias no Algarve há três meses; construo frases misturadas em três línguas para eles me entenderem e, às vezes, nem assim! Três línguas, sim. Não me enganei: inglês, português e childês ou infantilês, se preferirem, que é a linguagem da basicidade porque o meu vocabulário de adulta na língua materna também é estrangeiro para eles!)

"Está bem tíxEr! Eu faço!"
"Vai lá, então, to the doctor! Porta-te bem no dentista, mostra-lhe os teeth todos, mesmo os que te faltam!"

Intervalo. Cházinho, na sala dos professores. A meio do meu iogurte com cereais e nozes lembro-me de avisar a professora titular de turma que o menino saiu mais cedo.

"Bem sei; já tinha tudo combinado com a mãe dele. O que ele nem adivinha é que não vai ao dentista... Vai daqui directo passar o fim de semana prolongado na Disneyland Paris!"

Grande surpresa!
Nem imagino como disparará o coração de um piolho de oito anos ao descobrir que ao invés de ir limpar as cáries na nunca-muito-ansiada-cadeira-do-dentista vai fazer a viagem de sonho de qualquer catraio! Grande surpresa!

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Na caixa do supermercado


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       Dois carrinhos cheios à minha frente. O habitual pensamento de que a caixa ao lado teria sido melhor escolha, porque a nossa percepção nos diz que anda mais rápido. As filas onde alinhamos andam sempre, invariavelmente, mais lentamente. Aquelas que eu escolho empancam sempre. Um cartão que não aprova. Um cupão fora de prazo. Um produto sem código de barras. O escarcéu.  
      A senhora à minha frente pousa uma caixa de cartão com um carregamento para pistolas Nerf no tapete deslizante. Penso, já estás grandinha para brincar com isso. Sorrio para a ideia dela, de mola na cabeça, casa fora, a brincar com a pistola atrás do marido em cuecas. Agora dispõe alimentos. Escolhas que não seriam as minhas. Cereais muito açucarados. Ice-teas gigantes. Batatas fritas, packs familiares delas. Agora, comida. Mais uma vez, produtos pelos quais não opto: nuggets, douradinhos, lasanhas pré-confeccionadas, o tipo de coisas que, penso, os meus filhos devem comer às carradas nas cantinas, pela comodidade - de preparar e de consumir (agrada ao paladar dos pequenates).
     Reparo que pintou o cabelo hoje de manhã. Ficou bem, embora ainda revele marcas de tinta na testa e nas patilhas, ao lado das orelhas. Cabeleireiro de bairro, provavelmente. Não, hoje de manhã não. Ainda são onze horas. Não deu tempo. Talvez ontem à tarde, antes de ir buscar os miúdos à escola. Miúdos, sim, deve ter dois. Um das fraldas que agora colocou no tapete, o outro da pistola, pois claro, era para o mais velho, não para ela. Também fez o buço. Ainda está vermelho. Se calhar, então foi mesmo hoje de manhã, cedinho, assim que os largou, na ama e na escolinha. Arranjou as unhas, essas estão decentes. De gel, vermelho. Outra opção que eu teria saltado (o rubro). De qualquer forma está melhor do que eu, que precisava desses três cuidados e não arranjo tempo nem para um. O meu cabelo está curto e desgrenhado, o buço comprido e destratado, as unhas clamam lima, nem sei sequer se tirei as remelas. 
     Olha, a caixeira da fila ao lado já aviou mais um. Eu não me mexo. Comprou pensos higiénicos, a senhora da frente. Deve estar naquela altura do mês; portanto o bebé já não é recém-nascido; mas ainda não dorme a noite toda, a avaliar pelos papos que traz debaixo dos olhos. Pensando bem, não é critério. Eu também os trago e já não tenho quem chore de noite. 
     Isto não desanda. Para a próxima vou para aquelas que somos nós a fazer o serviço; aquelas em que passamos os produtos e tudo. Fazemos nós o serviço e pagamos o mesmo, mas, pelo menos, a gente tem a sensação de que está a fazer alguma coisa para resolver o problema. Agora assim... este impasse! Ainda por cima o caixeiro é feio! Jovem, mas bexigoso. E a precisar tanto (ou mais) de um corte de cabelo como eu. Chama-se Eurico, leio na lapela. Coitado. Um mau emprego, uma cara estragada e um nome feio. Oxalá tenha sorte noutras coisas.
     O marido da senhora da frente gosta de uísque; acabou de pousar duas garrafas de uma marca com duas letras no tapete. Ou, se calhar, já é para oferecer no natal. Ao sogro. Ou ao chefe. Ou ao vizinho que fez o favor de lhe trazer um saco de cebolas e uma tronchuda. Ou então é mesmo para ela, ao serão, depois de deitar os putos, enquanto vê a novela. Assim como assim, talvez isso explicasse as bolsas debaixo dos olhos.
     Vai pagar! 
     Temos esperança! 
     Talvez eu ainda consiga enfiar 
a correcção de testes/ 
roupa estendida/
preparação do almoço/
escrita de crónica/
leitura-de-só-mais-um-capítulo-deste-romance-que-me-traz-agarrada-e-me-faz-a-mim-papos-e-olheiras 
antes da uma hora da tarde!
     O caixeiro feio tem um apelido pior do que o nome próprio, reparo agora que avanço três passos: Carqueijo. (como o chá?) Franzo os olhos míopes para focar. Sai-me, em voz alta, Carqueijo? Ele explica, amavelmente, solícito, feliz por sair do discurso formatado (cartão XXXX? cupões? vai desejar factura com número de contribuinte? tem quatro euros e vinte e oito cêntimos de saldo, deseja descontar?)  Carqueijó, é Carqueijó, na impressão é que não saiu o acento; é um apelido ainda muito comum nesta zona. Ah, pois muito bem, era mais um saco, por favor. 
     Ala que se faz tarde! E esta espera trouxe-me a urgência de mais uma tarefa a entalar nos meus múltiplos afazeres: procurar a cabeleireira lá do bairro!

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

As cores da Black Friday

Estava para aqui a magicar que a sexta-feira negra faz jus o seu epíteto, não apenas porque há um certo apagão nos preços (haverá?) e, supostamente, descem os dígitos, mas também porque aquilo se tornou numa selvajaria tal que, há relato, não é difícil sair dos estabelecimentos comerciais com um olho negro. Lá está. Negro.

A verdade é que este é mais um dos grandes esquemas de marketing para nos varrer as já tão arejadas carteiras e que, amiúde, as promoções imperdíveis mais não são do que preços inflacionados cortados ao meio, com largas margens de lucro para quem vende e muito afastados do valor real dos produtos. Assim:

Foto de Marta Pereira.

Na voragem consumista, muitas vezes, esquecemos-nos de raciocinar. De optar em consciência. Sem manipulações. Em liberdade. Por isso é que - não ironica, mas propositadamente - é neste mesmo dia que se celebra o BUY NOTHING DAY. Um movimento antagónico que propõe que não se compre nada na famigerada sexta feira de saldos loucos.

O que me diverte é que  a Black Friday se prolongue por dez dias, como ouvi nalgumas campanhas. Dá-me vontade de rir que, na prática estejamos a falar de uma black Friday-Saturday-Sunday-Monday-Tuesday-Wednesday-Friday-and-so-on-and-so-on-etc-etc.... Neste caso será muito mais black (negra) do que Friday, uma vez que chegaremos ao final da dezena de descontos completamente depauperados. Negro!

Já estou como o outro, o do cartoon aqui abaixo, depois da sexta-feira negra vem de certeza o sábado vermelho, com népiazinha na algibeira!Vermelho!

Imagem relacionada

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Viroses

Dores de barriga.
Resultado de imagem para child with stomach ache clipartMuitas dores de barriga.
Todos os dias.

Todos os dias a Sarinha tem de abandonar a aula
e beber chazinho.

Muitas vezes chora, agarrada ao ventre;
Muitas vezes tem de ir embora,
que não suporta as dores
e tem de se ligar à mãe para a levar ao médico ou para casa.

Viroses,
chamam-lhe,
viroses.

Consecutivas viroses depois,
à décima nona aula que tens com ela,
apercebes-te
que dos duzentos alunos a quem que ensinas
a Sarinha é a que sempre tem dores de barriga
finalmente vês
percebes
enquanto escreves o summary
e ela se queixa,
choramingosa
melada,
carente
finalmente abandonas os outros vinte e cinco
a fazer legendas de places in school
e aninhas-te na carteira dela
e dispões-te a ouvir
a compreender que virose é esta que a não larga.
Uma vez que ela já foi e voltou da casa de banho,
perguntas se está melhor.
Não está.
Está triste e chora baixinho,
ou melhor,
CHORA
inaudivelmene
- só lágrimas cheias e soluços.

Então:
vês
entendes
perguntas
sabendo o que vais ouvir...

que tem saudades
que o pai não está em casa
que foi para Lisboa

perguntas
(mais uma vez) adivinhando a resposta que vais ouvir
O que faz?
É professor.