quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Sonhar em grande

O resultado de andar a ler um romance na Toscana (por sinal uma leitura de caca, mas avante) é ter tido um sonho espectacular esta noite:
 
Sonhei que estava a mergulhar num paradisíaco cenário na ilha de Capri. 😂
 
Saltava de uma formação rochosa para águas límpidas e de um azul tão cintilante como só nos filmes e a sensação era extremamente libertadora e prazerosa.
 
Tudo para acordar
para a cruel realidade de
ter de ir
para a escola...
trabalhar...
 
Imagem relacionada
Era mais ou menos isto...

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Edição de memórias - "a vida já me tirou tanto!"

"Desculpe ter passado à sua frente, não a vi! 
(eu para a dona do minimercadinho) 
Por favor, atenda esta senhora que já cá estava antes de mim"



"Não faz mal, esteja à vontade! Que mais dá?"




Eu, atenciosa a insistir que a atendessem, que tinha sido inadvertidamente.
A idosa, de lágrimas nos olhos, 

sem nenhum sinal de raiva mas com muita mágoa lá dentro,
deu-me a seguinte resposta:



"A vida já me tirou tanto que bem pode levar o tempo também..."




Apanhou-me desprevenida. 
Balbuciei coragens. 
Respondeu-me isso é para a menina que é jovem.
Atirei-lhe um lugar comum tipo "enquanto há vida há esperança", 
"um dia atrás do outro"
ou
 "há que teimar" 
e vim embora, 
desolada com tanta solidão.

(8 de fevereiro de 2017)

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

A quem possa interessar

Resultado de imagem para livro reclamaçõesCuriosamente a memória deste exacto dia no facebook era a seguinte:


Tenho-me como uma pessoa frontal, mas a idade ensinou-me a não dizer TUDO o que penso. 


De outra forma, sair-me-iam frases assim:
"Olhe, desculpe, 

a senhora sempre foi assim azeda, 
é um ressabiamento recente 
ou apanhei-a simplesmente num dia mau?"



Nem de propósito!
Estive, de novo, hoje mesmo, num balcão público onde me atenderam com má-vontade e sobranceria; onde me despacharam para a chefia se estivesse descontente; chefia pela qual aguardei civilizadamente durante uma hora, após a qual o meu vernizinho estava a começar a estalar. 
Percebi, então, que outras pessoas, menos ordeiras do que eu, estavam a ser aviadas. Percebi também que há situações nas quais, se formos muito cordatos e cívicos, tendem a não nos respeitar.
 Portanto, sem elevar o tom de voz, com diplomacia e assertividade (às vezes fico pasma com o meu próprio sangue frio) exigi que me resolvessem a questão, um direito meu, ou que, por favor, me dessem o livro amarelo. 
Palavras mágicas. Fez-se solução a velocidade cruzeiro e, como não tinham troco, nem da fotocópia necessária se cobraram! 

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Gusto

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Há por aqui um miúdo que se chama Valter e a quem, muitas vezes, eu chamo Vasco. 

Anda-se cansado, eles são muitos, a memória já não é o que era...

O facto é que o garoto gosta da minha aula e de mim e percebo que fica triste por lhe confundir o nome...

(perdas de memória cavalgantes que um dia darão origem a todo um outro texto... se me lembrar!😄😄😄😄) 

Então senti necessidade de me justificar e lá comecei a explicar que tenho umas gavetinhas na cabeça onde arrumo os nomes próprios de acordo com a consoante inicial... e, de certa forma, esses nomes ficam todos nessa categoria e tenho tendência a confundi-los.... 

Por exemplo: para mim, Saras, Sofias, Sandras e Susanas é tudo a mesma coisa e dificilmente acertarei no nome delas, porque estão simplesmente na gaveta dos esses

O mesmo se passa com o teu nome, explicava eu, que está na gaveta dos nomes começados por ; não leves a mal, é um problema que eu tenho. Também me acontece com um menino de outra turma que se chama Guilherme e eu às vezes confundo-o com Gonçalo ou Gustavo, percebes?

"Gusto!", interrompe-me outro.

Ah?

"Gusto, professora, Gusto também começa por G"

Um milésimo de segundo assarapantada a olhar para ele, a tentar perceber a pertinência do comentário. 
(Sim, porque eu ainda faço esse esforço extenuante de tentar fazer sentido das interrupções mais das vezes disparatadas que eles fazem a toda a hora...)

Alguém me salva:
"Isso é Augusto ó burro!Não começa por G!!!"

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Saga vida nova - Humidade

A gente sai de casa, às sete e vinte da matina,
Resultado de imagem para moist, cliparte a calçada está escorregadia, orvalhada.
Não é nevoeiro,
mas sentem-se
as gotículas no ar,
entra pelas narinas,
cheira a água!!!
O volante está viscoso,
as mãos pegajosas,
conduzir é deslizar!

De onde eu venho,
no árido nordeste transmontano,
a água é um problema.
Aqui também.
Ali porque escasseia,
aqui porque sobeja.

Afinal a Mary até tem a quem sair!
Sabia lá eu que tinha caracóis rebeldes no cabelo!
Há mais de vinte anos que os não via!
A viver no litoral jamais andarei penteada!

Estender roupa é um contra-senso! Sabem aquela sensação de absurdo, de acabar de estender uma pilha de roupa e começar a chover? Pois bem, aqui essa é a realidade a toda a hora! Um gajo sente-se tão mais estúpido quanto percebe que está a expor a roupa ao vapor perene da neblina! Para quê? Para secar?

Os vidros da escola estão embaciados, as paredes choram e as folhas de papel encravam nas impressoras devido à condensação que as faz enrugar! Dá-me vontade de rir quando as funcionárias anunciam: "Hoje não vão brincar lá para fora que está tudo molhado!"
A sério?!
Como é que elas distinguem isso?
Não está sempre???!!!!

Chover no molhado é uma expressão que foi, de certeza, inventada em Esposende.
Ou na Póvoa. Ou assim.
Se não foi, ganha todo um novo sentido - literal- nestas paragens.


Há vantagens, pois então, de viver neste ambiente aquoso:

- tenho sempre a pele hidratada;

- não preciso de regar as plantas;

- crescem-me coentros, espontaneamente, no capot do carro
Carro esse cujos pneus e escovas jamais ficarão ressequidos;

- As letras dos envelopes na caixa de correio liquidificam de tal forma
que se forem contas avultadas posso alegar que as não recebi!

- Nunca vamos ter cá em casa espumante meio seco, muito menos bruto (que é extra seco)! Melhor! Eu prefiro mesmo o doce!

- Quando aparecer bolor nalgum sítio faço negócio com a indústria farmacêutica. Alguém sabe a quanto é que está a grama de penicilina?

- Aqui o futebol é um desporto náutico! 
Quer dizer, pago uma modalidade e a criança faz duas: futebol e pólo aquático.
Saio a ganhar! Que mais quero?

Como é que eu hei-de explicar? 
Não é que esteja tudo MOLHADO, ENCHARCADO ou INUNDADO à minha volta, mas a verdade é que nem me atrevo a tentar TORCER as cortinas que tenho penduradas e que planeio trocar todo o calçado cá de casa por galochas de pescador! Ou barbatanas!

Quando cheguei a esta casa, dei com um aquecedor enorme encostado a um canto. 
Aquecedor!!!!!
A minha feliz inconsciência da existência de um mundo liquefeito!
Pensei: assim que o tempo arrefecer já te experimento.
Surpresa, surpresa!
Aquilo só fazia vento e tinha um recipiente onde, vim a descobrir, acumulava água, pois claro!
Era um mega desumidificador, que, entretanto, está de serviço permanente  cá em casa, numa vã tentativa de aspirar o mar das paredes! O gajo bem que suga, suga, suga, mas parece que viver à beira-mar não lhe facilita muito a tarefa!



quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Abraço forte (nano-conto)


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ERA UMA VEZ...
uma funcionária 
que todos os miúdos na escola adoram.

Certa tarde, 
deu um  abraço tão forte a uma menina
que lhe partiu os óculos!

Não vos parece enternecedor?


terça-feira, 16 de janeiro de 2018

AMAZING

Resultado de imagem para céu cor de rosa com nuvens
Saio de casa, atarantada.

São sete e vinte da matina,
 está frio 
e o meu cérebro ainda está meio adormecido.

Sonolenta e a contra-gosto,
mastigo a incomodidade de ir trabalhar tão cedo,
a incomodidade de ir trabalhar!

Lembro-me da vizinha que tem a sorte de trabalhar todo o dia em pijama, ao computador,
faço planos de arranjar um emprego digital,
aconchego o casaco, 
fungo o nariz arreliada, 
dói-me a cabeça 
ou apetece-me que me doa a cabeça 
para não ter de ir trabalhar, 
reparo que não engraxei o raio das botas, 
mais um privilégio que tem quem não sai de casa para laborar, 
quando arranjar o meu teletrabalho nunca mais engraxo as botas, 
ando de pantufas o tempo todo 
e rebolo no sofá, 
com a manta 
e o portátil 
e a felicidade toda numa chávena de chá!

Levanto os olhos e, finalmente VEJO. 

Alvorada deslumbrante!
Há um céu cor-de-rosa raiado de nuvens por cima da minha cabeça efervescente. 
Tonalidades magníficas que o meu cinzentar rabujo ainda não me tinha permitido ver. 
Uau! Pasmo, uns segundos, sem entrar no carro.

A natureza a brindar-me com  a alegria e a beleza de estar vivo. Obedeço. Tenho a decência e a humildade de calar as resmunguices interiores e de reconhecer o privilégio que é assistir a este deslumbre, fazer parte dele!

Entro no carro, dou à chave. Está a dar "Amazing" dos Aerosmith.
Nem de propósito, mesmo no refrão:

It's amazing
with the blink of an eye you finally see the light
(É incrível
Num piscar de olhos, finalmente vês a luz)

Mesmo!

It's amazing
When the moment arrives that you know you'll be alright
(É incrível
Qunado chega o momento sabes que vais ficar bem)


Vou mesmo.
Obrigada pela mensagem, Deus dos céus!