terça-feira, 16 de janeiro de 2018

AMAZING

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Saio de casa, atarantada.

São sete e vinte da matina,
 está frio 
e o meu cérebro ainda está meio adormecido.

Sonolenta e a contra-gosto,
mastigo a incomodidade de ir trabalhar tão cedo,
a incomodidade de ir trabalhar!

Lembro-me da vizinha que tem a sorte de trabalhar todo o dia em pijama, ao computador,
faço planos de arranjar um emprego digital,
aconchego o casaco, 
fungo o nariz arreliada, 
dói-me a cabeça 
ou apetece-me que me doa a cabeça 
para não ter de ir trabalhar, 
reparo que não engraxei o raio das botas, 
mais um privilégio que tem quem não sai de casa para laborar, 
quando arranjar o meu teletrabalho nunca mais engraxo as botas, 
ando de pantufas o tempo todo 
e rebolo no sofá, 
com a manta 
e o portátil 
e a felicidade toda numa chávena de chá!

Levanto os olhos e, finalmente VEJO. 

Alvorada deslumbrante!
Há um céu cor-de-rosa raiado de nuvens por cima da minha cabeça efervescente. 
Tonalidades magníficas que o meu cinzentar rabujo ainda não me tinha permitido ver. 
Uau! Pasmo, uns segundos, sem entrar no carro.

A natureza a brindar-me com  a alegria e a beleza de estar vivo. Obedeço. Tenho a decência e a humildade de calar as resmunguices interiores e de reconhecer o privilégio que é assistir a este deslumbre, fazer parte dele!

Entro no carro, dou à chave. Está a dar "Amazing" dos Aerosmith.
Nem de propósito, mesmo no refrão:

It's amazing
with the blink of an eye you finally see the light
(É incrível
Num piscar de olhos, finalmente vês a luz)

Mesmo!

It's amazing
When the moment arrives that you know you'll be alright
(É incrível
Qunado chega o momento sabes que vais ficar bem)


Vou mesmo.
Obrigada pela mensagem, Deus dos céus!


terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Chinês

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Por vésperas de natal corri tudo atrás de um pedido da Mary: umas sapatilhas com rodas. A coisa estava difícil.  Onde é que eu hei-de encontrar tal chinesice? Ora, pois claro! No Chinês.

Aqui, como um pouco por todo o país, não falta escolha.
Portanto, lá estaciono em frente a um grande armazém com uma mega montra iluminada de luzinhas pisca-pisca e repleta de árvores de natal artificiais, fatos de pai natal e de mãe natal de gosto e qualidade duvidosos, tralhas e quinquilharias múltiplas e inenarráveis.

Entro,
na expectativa de lá encontrar o velho atarracado afogado atrás do balcão num mar de plásticos e tarecos artificiais, enterrado naquele cheiro a polímero artificial, compenetrado a assistir a filmes em mandarim no youtube. Preconceito meu.

Engano-me.
Não é que eu estivesse propriamente à espera do estereotipo encarnado do tradicional traje chinês, cetim vermelho debruado a doirados ou seda azul com pássaros e dragões bordados, quiçá até com o bigodinho da praxe... Mas também não estava à espera daquilo. Afinal temos a cabecinha cheia de gavetas escusadas e imprestáveis.

Era um jovem definitivamente asiático, bonito, perfumado, bem vestido. Calça caqui chino, com dobrinhas no fundo, estilo Tommy Hilfigger; pullover justo com aplicações  aveludadas nos cotovelos; os colarinhos e as abas da camisa de ganga a sair propositadamente do pullover e em pendant com os sapatinhos de vela azuis.

Também o seu português, e particularmente o seu sotaque do norte, era surpreendente.
Falava fluente e vivamente ao telefone,
sem trocar os erres pelos eles,
trocando- isso sim- os vês pelos bês,
abrindo muito as vogais à norte
e dizendo coisas como
"Que chunga!!" e "Esse trengo que apareça, combinamos umas cenas e bazamos!"

Sorrio,
muralhas de prateleiras adentro, ao ouvir aquele vocabulário juvenil e nortenho na boca dele
(sabem como é, naquelas superfícies as vozes ecoam)
Penso:
segunda geração, certamente nascido e criado em Esposende,
um português de gema
estudaste na nossa secundária
conheces os Lusíadas
leste Pessoa e Saramago
se aqui moras
certamente já foste ao arraial do Santoinho
beber uns canecos, comer umas sardinhas, cantar Quim Barreiros ou até mesmo dançar o vira!

Não encontro as ditas sapatilhas
e, como de costume, já me estava perdendo no barulho visual daquelas prateleiras carregadas de cores e de objectos inusitados que demoro a deslindar, que me implicam esforço visual a focar, um verdadeiro esforço de percepção, esforço sensorial, se é que me entendem. Saio sempre destes espaços com os olhos esbugalhados de esforçar a miopia para ver, para focar e sinto-me também, amiúde,  meia nauseada do cheiro a borracha e incenso.

Desisto de  procurar.
Vou pedir ajuda.
Atende-me com simpatia, educação e mesmo alegria.
Um grande sorriso e inflexões melódicas na voz.
- Não, já não temos. Houve uma altura em que vendemos muito disso, mas agora já não.
Lamento imenso. Por que não vai ali abaixo, àquela loja nova que abriu ao fundo da rua? É capaz de ter...
- Qual? A do...
Interrompo-me,
engulo a palavra.
Raisparta! Não se diz a um chinês que vamos à loja do Chinês!
Mas como raio é que se diz?
Durante uns milésimos de segundo, hesito.
Procuro a palavra na minha cabeça: venda? mercado? drogaria? estabelecimento?
Nenhuma me parece correcta. Dizemos o chinês para significar uma determinada realidade que todos conhecemos, mas, cum raio, não é muito politicamente correcto designar uma funcionalidade, um negócio com uma nacionalidade ou raça, pois não? Soa xenófobo. Soa discriminatório. A mim, naquele momento, soava-me (pela primeira vez na vida) incrivelmente inapropriado.
-Qual loja?
pergunto para ganhar tempo, e ele:
- A nova, que abriu do outro lado da rua... é muito boa também!
Não me está a ajudar, falta-me a palavra.
Penso que sei ao que se refere, mas parece-me estranho que me esteja a sugerir a concorrência.
Penso ainda: deve estar mesmo a indicar-me outra loja do Chinês, assim como assim eles são todos da mesma família - censuro-me internamente; que disparate! preconceito meu!
Aponto
- Ali?
- Sim. Boa sorte.
- Obrigada. Boas festas.
- Um óptimo Natal e volte sempre.

Entro no carro, a magicar.
Um gajo não diz ao Chinês que vai ao Chinês.

BAZAR!
De hoje em diante vou esforçar-me por dizer bazar. O bazar do chinês. 😆



segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Resoluções do Primeiro Dia do Ano - ou de como a vidinha não se compadece com metáforas idílicas e abstractas

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Resoluções do Primeiro Dia do Ano a fazer jus aos votos brindados na Última Noite do Ano:

1) SAÚDE
Lavar os flutes peçonhentos do champanhe adocicado e os resquícios aziumados do vinho tinto nos copos de balão... para não incubar bactérias e cenas que fazem mal.

2) AMOR
Aspirar migalhices dos vinte pratos, entradas e saídas degustados, bem como fitinhas e confetis de alegria entranhados em tudo o que é canto, desde o vinquinho do sofá à parte traseira do bidé... todo o esforcinho, claro, com muiiiito amor!

3) ALEGRIA
Fazer uma duzinha de máquinas de roupa - toalhas de mesa e guardanapos tingidos com o tinto da alegria da véspera; roupas a cheirar a tabaco dos sítios festivos em que estivemos; aventais e panos de cozinha conspurcados pela confecção do repasto de Ano Novo! Tudo com um grande sorriso de alegria nos lábios!

4) DINHEIRO
Acomodar e congelar toneladas de restos de doçuras e petiscadas que podiam aprovisionar um exército e, sabe-se lá como, foram sobrantes para nós. Acondicionar tudo no gelo, por forma a potenciar futuras e económicas marmitas.

5) AMIGOS
Estes não aparecem, no dia seguinte à festa, para limpar esta desordem toda...


Soooo...
What's new?

Feliz 2018, gente!
O Novo com as mesmas lides do Velho!!!


domingo, 17 de dezembro de 2017

Diana Bar

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       Na sexta feira foi dia de festinhas de natal: muitas crianças felizes, muitos gorrinhos vermelhos e bandeletes com corninhos de rena e sininhos e saias de pregas com meias pelos joelhos e rímel em bailarinas pequeninas e vozinhas angelicais em uníssonos de Merry Christmas!
        Até aqui, nada de novo. 
   
      A surpresa do meu dia foi este edifício e, uma vez mais, o deslumbre!
    Como é que eu pude ter trabalhado na Póvoa durante três meses sem ter tido conhecimento deste espaço? Aliás, como pude viver estes anos todos de vida sem...

       Aconteceu que tive de acompanhar uma escolinha a este espaço, porque decidiram celebrar lá a sua festinha de natal. E lá fui, inconsciente, rua fora, ao som do hino deles, todos contentes a cantarolar.

     À chegada - o pasmo! O deslumbramento!
    Foi-me difícil centrar-me na festa que iria decorrer no interior, porque simplesmente tinha chegado ao paraíso na terra: aquilo é uma biblioteca, em cima da areia, num edifício circular, todo envidraçado com vista para o mar!!!!! 
   Livros e mar! 
    Vou repetir: uma biblioteca em frente ao mar!
   
    Posso largar o ensino e ficar a trabalhar aqui até morrer?
       
  

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Dormisses!

Imagem relacionadaTrabalho numa das únicas escolas básicas (1ºciclo) do país que funciona em bi-horário,
quer dizer, há umas turmas de manhã e outras à tarde. 

Isso significa que as aulas começam às oito da manhã. 
"Às oito" não é uma forma de expressão - é mesmo a hora exacta a que o turno da manhã começa.

De maneiras que, 
após uma noitada a ultimar avaliações 
de olhos grudados e já trocados no excel das infinitas turmas gigantes,
diz-me uma garota na primeira aula da madrugada:

"Ó tíXER! Quantas horas dormiste hoje?"

(penso, deves estar com um lindo aspecto, deves! Já há muito que adoptaste o look bruxa-desmaquilhada, mas hoje que te deitaste às três e levantaste às seis e meia, sem sequer disfarçar com uma base hás-de  estar bonita...)

Balbucio: 
"Aaahhhmmmm... 
Porquê???.... 
Nota-se muito????... 
Tarde... deitei-me muito tarde ... estive a trabalhar..."

"Ah, bem me parecia!
É que o meu pai também é professor e esteve a fazer grelhas no computador até às quatro da manhã..."

E heis que finalmente aquela tagarela enfezada que me infernizou a vida desde Setembro consegue tocar o meu coração!

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Motivo incontornável 2

A meio do teste.
(eu simplesmente odeio que eles interrompam o silêncio da prova!!!! Irrita-me solenemente, pelo que fico logo sem disposição nenhuma para o que me vão dizer a seguir...)

Resultado de imagem para kid with a falling tooth, clipartTíxEr, posso ir à casa de banho lavar a boca?

Eu,
a leste do paraíso,
a anos luz da faixa etária a que agora me dedico,
eu,
sem pescar mesmo nada da poda:

"e por que cargas de água hás-de tu ter de ir lavar a boca a meio de um teste?"

Caiu-me um dente e sabe a sangue!

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Motivo incontornável

Fotos: Reprodução
"TíxEEE-E-E-E-E-E-R!"

Logo à entrada, antes mesmo de eu conseguir sequer abrir a porta.

"Diz, João!"

"Eu não estudei nada para o teste..."

Eu a preparar-me para o discurso do só-te-lembras-de-santa-bárbara-quando-troveja-e-agora-que-te-estou-a-entregar-o-enunciado-é-que-te-ocorre-o-estudo...

E ele, antes mesmo de eu abrir a boca:

"é que o carro da minha mãe foi assaltado!!!! 
e eu tinha lá a mochila com as coisas ...
e também tinha os livros de inglês ...
e eles levaram tudo e...
e...
e eu não pude mesmo estudar..."