sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Saga mudanças - saber de experiência feito

 Imagem relacionadaAgora que estou a acabar de dizimar caixotes
e para aqueles que me foram seguindo nesta saga das mudanças, 
aqui vão algumas pérolas de conhecimento adquirido a braços, suor e lágrimas, 
saber de experiência feito, como dizia O Poeta:

1) a fita cola da loja dos Chineses não serve...
Tem a mesma largura, diâmetro e cor que a desejável, mas não tem a força nem a resistência necessária para as cargas. Ou seja, um gajo sela os caixotes, aquilo tem a cor castanhinha e tudo, mas depois aquela porcaria descola toda, não chega ao destino. A  única utilidade que lhe vejo é caçar moscas desprevenidas - e, mesmo assim têm de ser mesmo daquelas muito estúpidas ou muito grogues. É pendurar umas fitinhas do tecto e esperar que elas lá fiquem presas...

2) a capacidade dos caixotes é um engodo
lá porque aquilo diz que alberga 30 kilos, isso não quer dizer que a gente os vá conseguir sequer levantar do chão...

3) etiquetar ou escrever em caixotes NÃO é perda de tempo
Evita que se tenha de jogar ao ovo kinder na nova casa e que se ande a desembrulhar cinquenta pacotes até descobrir onde raio param as cuecas!Ou aquele urso de peluche sem o qual eles não dormem...

4) sacos do lixo de grande capacidade são imprescindíveis
são óptimos para atoalhados, edredões, almofadas, tapetes, cortinas e até roupa. São óptimos para o efeito alcochoamento da carga - isolam objectos mais frágeis e são fáceis de acomodar na mala do carro.

5) Quando, à chegada, tilinta... está partido!

6) O frango no churrasco é o melhor amigo dos casais em mudanças!

7) O papel higiénico também 
e convém existir - à saída e à chegada.

8) Na casa  de onde partimos parece tudo essencial. Na casa onde chegamos prescindir-se-ia de metade para não ter que desempacotar mais. Aliás, quem já fez mudanças sabe que alguns caixotes ficam provisoriamente para sempre na garagem!

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Aceito, confio, recebo e agradeço

Porque estive na "nossa" praia, porque é verão e pessoas me voltam a falar de ti, porque a saudade aperta. porque se aproxima a data do teu aniversário, não sei.

Há dois dias que tenho o mesmo sonho. Um pouco absurdo, como próprio do onírico, mas nítido e perturbador.

Vejo-te na praia, banhada de luz, sob um sol intenso, a fazer um valente serviço de volleyball em suspensão. 

E é ali. Aquele momento. Suspensa no ar, acima da areia, com um movimento pujante do pulso direito que te me traz à consciência e simultaneamente me acorda.

Desperto banhada em suor, com um aperto no peito e confusa, embora, durante o sono, não se trate de um pesadelo; pelo contrário, é uma alegria ver-te ali suspensa a jogar.

No entanto, acordo confusa...desapontada por não ser real, por ser tão curto, por terminar. Na vida real não jogavas volley, mas não é que não aceitasses o desafio, se to colocassem. 

Por outro lado, tu representas para mim aquela energia, aquela vivacidade, aquela força. Por isso, no final do sonho há aquele amargo de boca que a vida nos deixa quando morre alguém muito jovem ou um atleta ou um herói. A gente resigna-se, mas não deixa de pensar que havia ali tanto potencial perdido.Acho que é por isso que me sinto tão incomodada ao despertar.

Todavia, não me queixo. Durante anos estive presa à tua cama de hospital. Percebia o quão traumático isso havia sido para mim, mas irritava-me não conseguir recuar para milhares de experiências igualmente intensas, mas mais agradáveis que partilhámos enquanto mãe e filha.

Agora, ao menos, vejo-te banhada de luz boa, suspensa e em acção. 
Recebo e agradeço. É tudo o que preciso nesta fase.

Poema em linha recta

Álvaro de Campos - Poema em linha recta
Imagem relacionada
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

domingo, 20 de agosto de 2017

Primeiras impressões sobre o futuro

No outro dia fomos a Esposende.
Fazer um reconhecimento de campo mais incisivo - escolas, piscinas, clubes e campos de futebol disponíveis, enfim,  antecipar rotinas para o ano lectivo que vem.
Ainda não era Agosto, a época balnear não estava no seu pico, portanto pareceu-nos tranquilo e saudável.
O que nos saltou à vista:
-  uma marginal fabulosa para caminhadas em família;
- uma cidade planinha para andar de bike;
- actividades na marginal ou no rio: pesca, papagaios de papel; canoagem, kitesurfing...
- um centro histórico limpo, organizado e aprazível;
- uma envolvência muito rural, muitas estufas, muitos milheirais, muitas vacarias, muitos tractores a passar, conduzidos por mulheres valentes e carregados de cebolas.

"Mãe, aqui é tudo ZENDE ou Cávado"

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Princesa enquanto dura

Alguém leva as meninas-de-etnia-da-escolinha-difícil-onde-nenhum-professor-aguenta-muito-tempo a um encontro interescolas numa cidade do distrito.
Resultado de imagem para princesa disney ciganaAs meninas estão tão eufóricas que me contam, estridentes, que vão dançar a outro país.
Alguém pega nelas, leva-as para sua casa, lava-as, veste-as, penteia-as, maquilha-as, arranja-lhes as unhas e perfuma-as. Adorna-lhes os cabelos com flores de papel feitas à mão. Transforma-as em verdadeiras princesas.
As meninas princesas portam-se lindamente em palco (e fora dele).
Nesse dia não há zaragatas, não se insultam, não se agridem. São princesas a viver um sonho partilhado. Porque alguém acreditou nelas e lhes deu uma oportunidade.
Fazem uma exibição magnífica; dançam como princesas das arábias.
Voltam deslumbradas e felizes.
À chegada, uma surpresa comovente. Uma delas tem à sua espera o príncipe encantado que o seu coraçãozinho de nove anos mais deseja e que não vê há três anos. O pai, a usufruir de uma precária.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Anjinhos jolies

Resultado de imagem para anjinho, clipartHoje participei numa procissão à Sra da Assunção, em Santo Tirso. Assisti a uma Missa Campal presidida pelo Bispo do Porto. E devo dizer que ambas as experiências me proporcionaram momentos de bem estar e conforto espiritual.
No entanto, não é a dimensão pessoal da experiência que aqui interessa.

A nível sociológico constatei o seguinte:
- há uma crise de afluência de anjinhos; o negócio está fraco, dizem as alugadeiras de fatos, e já rendeu mais...
- os poucos anjinhos que comparecem falam francês, são maioritariamente filhinhas de emigrantes, que acham jolie, mas não sabem rezar na língua de Camões; isso também prejudica o negócio, segundo as velhinhas piedosas comentadeiras dos arredores;
- há poucos jovens, a meio de Agosto, a subir a serra para orar. Parece que a praia ganha aos pontos e, por isso, a procissão está pejada de cãs e o passo é mais arrastado do que as avé-marias cantadas em vozes cansadas;
- na missa campal há surpreendentemente dois jovens, moços, à minha frente. Cantam como rouxinóis em segundas e terceiras vozes; pelo que desconfio serem seminaristas. Espreito os sapatos e tenho a certeza - sapato preto, clássico, em desuso, são seminaristas certamente. Recrimino-me pela fuga de pensamento do divino e concentro-me nas minhas intenções.
- Desconcentra-me outra vez um casal de meia idade, que saca de uns banquinhos montáveis in loco. Nunca tinha visto tal artimanha e distraio-me, confesso, espanto-me com a engenhoca.
- Terminada a cerimónia, verifico que os docinhos de feira, os salpicões de Lamego e as bancas de trapitos dos feirantes são quase tão aliciantes aos devotos como a restante parte religiosa da festa;
- Constato ainda que os garrafões e o enfardamento no pinhal consolam bem os corpos de espírito saciado.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

"Ninguém faz uma peça sobre o trabalho dos jornalistas?"


Resultado de imagem para jornalista, clipartEu faço. É capaz é de não sair assim muito jornalístico; mas é o meu contributo.

Não és bombeiro, mas quando o alarme soa no quartel, também és alertado, também tens de enfiar umas calças à pressa e zarpar para o meio de florestas densas, lugarejos perdidos, aldeias em chamas, o que tiver de ser.
Não és médico de plantão, mas também acodes urgências, de madrugada, a desoras, quando calha e o dever te chama.
Não fazes a ronda da noite, como a polícia, mas se a coisa dá para o torto, particularmente se a coisa dá para o torto, lá vais tu, atrás das luzes de emergência, cobrir o incidente.

Corres atrás dos factos, 
deixando para trás a tua verdade morna,
os teus em caminhas fofas
e soninhos descansados.
Vais no sentido de um dever, com mil outros a pesarem-te na consciência
como os lanchinhos que ficaram por fazer para o dia seguinte, se houver escola.
Ou ainda quem os irá levar à escola.
Se consegues chegar a tempo para fazer a magia maternal do malabrismo omnipresente: escuteiros, volley, ballet, tpcs e janta.

No entanto, agora vais no sentido de um dever e é esse que te ocupa o cérebro e consome a adrenalina:

Oxalá os factos  que persegues apareçam céleres, claros, sucintos e, de preferência, de fonte fidedigna e confirmada.

Oxalá a neve seja copiosa q.b, para ter impacto visual na reportagem, mas sem impedir os acessos de regresso a casa.

Oxalá as chamas e as labaredas não interfiram com os meios técnicos para emitir um bom directo. Oxalá os olhos não lacrimejem e a voz não se embargue. Nem pelo fumo, nem pela emoção.

Oxalá os políticos não se lembrem de vir todos no mesmo fim de semana, a concelhos limítrofes deste distrito acidentado de alta montanha e distâncias.

Oxalá em Lisboa eles entendam que "dar um saltinho" a Freixo-de-Espada-À-Cinta é capaz de demorar mais do que atravessar a 25de Abril em hora de ponta.

Oxalá o ajuntamento popular em frente ao tribunal não dê sarilhos.

Oxalá a polícia colabore e não exorcize a comunicação social pelos males sociais, quer dizer, oxalá te deixe fazer o teu trabalho, a ti e à equipa, com profissionalismo e ética. (Aqui, pensas, oxalá os colegas tenham a deontologia necessária para respeitar também as forças da autoridade e o seu serviço.)

Oxalá haja tempo para provar os produtos das Feiras que cobres. Venha de lá a boa vontade das gentes, a alheira, o fumeiro, o pão, o azeite e os folares. O nosso povo é hospitaleiro, saca do palaçoulo e racha sempre umas rodelas de chouriço em cima da carocha do pão.

Oxalá não seja a última vez que o tiZé da recôndita aldeia estende a mão enrugada e trémula neste gesto largo. Para ti, jornalista no interior envelhecido, muitas vezes, é.