terça-feira, 9 de agosto de 2016

Homens às compras


Os supermercados de praia davam um estudo sociológico. 
A mim, diverte-me.

Enquanto elas adiantam as lulas para o almoço, ou fazem as sandes ou besuntam os miúdos de creme protector, a eles toca-lhes ir aviar a lista de compras, que elas alinhavaram, com laivos  de malvadez para lhes infernizar a vida. São mais os avós, homens daquela geração que não mexeu uma palha a vida toda e que tem agora, no outono da vida, de carregar os fardos todos!

No outro dia, aflitos, a conferenciar em frente à banca da fruta.
"Só há brancas...", desesperava um.
"Levamos destas...", arriscava o outro.
"Mas elas disseram pretas..."
"Então, não levamos nenhumas, dizemos que não havia..."
"Eh pá, isso não! Que ainda levo nas orelhas..."

O drama é real. Arriscaram uns cachos de uvas brancas. Eu, ri-me. Trocámos um sorriso cúmplice. Empatizei com eles. O mulherio é do piorio. Fosse qual fosse a decisão que tomassem, levariam nas orelhas de qualquer forma! Lol.

No dia seguinte, na peixaria. Ele, capaz, convicto, claramente orgulhoso da sua performance, a desempenhar a tarefa com brio e assertividade:
"Eram quatro carapaus, se faz favor!"
Ma-gis-tral.
A peixeira é que estragou tudo:
"Amanhados?"
(naquela pronúncia algarvia, cuja entoação é sempre interrogativa, mesmo quando o não é; neste caso, era.)
Bloqueou. "E agora, que é que eu digo?"
Sem dúvida os primeiros carapaus que comprava na vida.
Saltei em seu auxílio. Sussurei-lhe "amanhados, amanhados", certa de que a ela não lhe apeteceria esventrar peixe ao vir da praia e rezando para que o meu conselho não trouxesse (mais uma)
discussão conjugal!

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Mar salgado

 
Se, como diz o poeta, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal...
Quantas das tuas vagas são energia nossa também, 
e alegria,  
e entusiasmo,
e renovação
e mergulhos de crianças
e casais sexagenários de mãos dadas a molhar os pés na tua doçura, 
Mar Atlântico!
Amornas as almas do cansaço da labuta
acendes paixões de espuma,
afagas saudades
no rumorejar de ondas
trazes segredos ancestrais
milenares e eternos
que se sedimentam em areias finas e vãs.
Lambes-nos feridas antigas
que ardem  para sarar.