quinta-feira, 27 de julho de 2017

Mobilidade por "Doença"

      Num país em que um professor com sete cancros é chamado a junta médica e considerado apto a trabalhar, dando origem a uma paródia hilariante da equipa de Ricardo Araújo Pereira nos Gato Fedorento (aqui - JUNTA MÉDICA)

há uma região que tem imunidade a juntas médicas, funciona a coberto ou apesar delas,

talvez por ter desenvolvido uma doença autóctone, uma epidemia cavalgante a um ritmo de contágio preocupante que as autoridades não têm conseguido conter. 

Eu suponho que, por este andar, isto venha a tornar-se um caso de saúde pública, mas - como noutras situações catastróficas e de crise - no nosso país acorda-se tarde e mal para os problemas, por mais denúncias públicas e alertas que se façam.

(O assunto não é novo.  Veja-se, por exemplo no Expresso (2015) ou na imprensa local ,d' O Mensageiro de Bragança(2016) ao Jornal do Algarve )

Ironias à parte, o que alguém já apelidou de epidemia transmontana, está muito bem explicado aqui

Eu, fico-me pela ironia.
A meu ver, algo de muito patológico se passa por detrás dos montes. Apesar de, como é sabido, "para lá do Marão"  mandarem "os que lá estão", há-de chegar a altura em que alguém acorde para este fenómeno que a evidência dos números não nega.

Uma centena de professores, deslocados para um determinado agrupamento por motivo de alegada doença sua ou de ascendentes, dava para criar todo um agrupamento novo. Uma centena de professores é o número de recursos de que alguns agrupamentos dispõem para levar a cabo as mesmas metas pedagógicas e taxas de sucesso que os outros.

A mim, levantam-se-me uma série de questões.
A montante:
- da ética de tantos colegas, que a cavalo na chicoespertice ultrapassam os seus pares sem o menor escrúpulo, abusando de um refúgio legal que protege - e bem - os mais fracos e os que mais precisam.
- da conivência de direcções engajadas e comprometidas, frutos e produtores de caciquismos locais milenares e inamovíveis, porque uma-mão-lava-a-outra e hoje-tu-amanhã-eu;
- da seriedade ou do preço de atestados que se passam em massa para o favorecimento pessoal dos amigos e amigos de amigos até 5ºgrau;
- da conivência da classe, que, no geral, assiste e não reclama, pois ou há moralidade ou comem todos e um dia quem sabe não me faça falta também...

A jusante:
- da inoperância de supostas inspecções;
- da conivência ou lascismo do poder central;
- da placidez dos encarregados de educação (com tantos recursos, tais agrupamentos só poderiam atingir resultados de excelência)
- da paz social imperante.

E aqui, avanço. Um dia, este "sistema" há-de estourar por dentro. Não me parece que a rebelião demore muito. Para além das centenas que se vêem ultrapassadas e não conseguem aproximação à residência, hão-de começar a doer-se os que efectivamente têm serviço lectivo atribuído e aturam encarregados de educação tão insolentes como os filhos, e corrigem trabalhos e testes e preenchem grelhas e relatórios e vão a reuniões fatigantes que se hão-de fartar de que os cento e tal MpDs, na gíria "doentes" (sãos) levem uma vidinha boa sem encargos nem responsabilidades. Sem serem chamados à pedra por notas de exames ou por médias internas ou por coisa alguma. É gráfico e flagrante e, repito, há-de estourar. Há toda uma sala de professores cheia durante um intervalo, tudo a tomar o seu cafezito. Toca. Uns, levantam-se e vão trabalhar; os outros, não.

É a vidinha.
Casualmente, ou nem por isso, no dia em que saíram as famigeradas listas roubadas cruzei-me com uma mancheia de colegas que haviam ficado colocados, digamos, não idealmente, mas que me revelaram ter ascendentes dependentes (quem não na nossa faixa etária?), qual trunfo na manga, panaceia miraculosa concursal.

Quem me conhece sabe que sou guerreira na defesa da escola pública. Nada disto a dignifica ou engrandece. Há-de estourar.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

A ficção ataca a realidade (Saga Mudanças)

Resultado de imagem para embrulhar decanterAvança-se na pilha de jornais:
embrulha copo,
envolve decantador
(por que raio é que deitei a porcaria da caixa fora?
acomoda chávena
 - e eis senão quando -
surge a necrologia 
e lá fica a gente, em pausa, apiedada daqueles desconhecidos
- este era tão novo; aquele tinha filhos; esta não ficou lá muito bem na fotografia, bem podiam ter-lhe escolhido outra, ao menos nesta horinha -
a imaginar-lhes vidas, relações, profissões, percursos; enfim, eu escrevia um romance a partir de uma página destas!
Resultado de imagem para conjunto de chá de brincar(Aliás, eu escrevo, mentalmente, enquanto acomodo as coisas nas caixas de cartão.)

As mudanças têm momentos irritantes,
de fazer cócegas nos nervinhos da gente,
como ter de acomodar loiça pequenina das bonecas, tal como se acomodou a grande, da vida real.
De repente, apercebo-me (medo!) - as Barbies, os Nenucos e as Barriguitas estiveram a conspirar contra a minha eficiência. Por conseguinte, no quarto da minha filha,
toda uma outra casa a empacotar,
com direito a roupinhas, calçado, ferramentas, acessórios de cabeleireira, utensílios de puericultura, instrumentos de medicina, electrodomésticos (juro que carreguei com uma máquina de lavar roupa em miniatura)... ou seja, não apenas uma casa, mas várias, uma cidade inteira para dentro de MAIS caixotes. Aaaaghhhh!

A ficção ataca a realidade e a vítima sou eu!!!!

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Entulho erótico*

Resultado de imagem para woman moving house clipartO entulho continua... o embalamento prossegue.
Meter a vida em caixotes e, como diz na imagem, O Lar é onde está o nosso coração, mesmo se não te conseguires lembrar do caixote em que o puseste!

A mente divaga-me, como sempre que estou em tarefas manuais e particularmente nesta com materiais legíveis à minha frente - jornais (para embrulhar)... sou incapaz de não ler!
Então fico a saber, por exemplo, que
Shakira está de regresso a Portugal em 2017;
Cristiano Ronaldo foi criticado pelo novo penteado (e eu nem sabia que tinha cortado a trunfa);
Ficam presos suspeitos de matar empresário (o de Braga, penso, sequestrado em Lamaçães em frente ao filho); Mochilas passam a ser banidas dos concertos;
Autarquias devem 344 milhões de água;
IRS vai baixar para um milhão de portugueses (não deve ser comigo);
Reforços chegam esta semana (antes fosse comigo)!!!

Enfim...
fico a saber coisas que me interessam
e coisas que não me interessam:
tudo me entra pela vista dentro enquanto embrulho e empacoto a casa.


Eu juro que, de início, estava a fazer uma selecção mais restritiva dos itens a empacotar. Mirava, remirava, repensava a utilidade possível de algo que não utilizo há uma duzinha de anos e lá acabava por decidir. Agora a triagem é cada vez mais apertada, na exacta proporção da chegada do prazo da partida e da incomodidade de carregar tanta tralha. No entanto, há momentos em que hesitamos:deitar fora? doar?levar?

De repente, uma relíquia que levanta a dúvida. Lá para o fundo duma das prateleiras mais altas da cozinha descubro aquele fóssil da nossa juventude de jantaradas e borgas entre amigos:

Copinhos chineses de Saqué, daqueles que têm mulheres nuas no fundo que só aparecem depois de vertido o líquido sobre elas.

Rio-me  com a descoberta. Finalmente a bota há-de bater com a perdigota. A ver se embrulho estas relíquias com as páginas de classificados picantes! 

* sequela  deste post aqui

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Esconder as vergonhas

Resultado de imagem para lady packing with newspaper, freeEh pá!

Não sei que me parece estar a embrulhar as molduras com os rostos mimosos dos meus filhos bebés em páginas de anúncios pejadas de nádegas proeminentes ...
(a embrulhar bochechas com bochechas, ocorre-me!)
Eu juro que, de início, rasgava essas páginas com todo o pudor antes de começar a trabalhar, mas agora já estou naquela fase neura de querer acelerar o empacotamento, nem que para isso tenha de utilizar as páginas das bundas reluzentes e demais vergonhas.
(Não sem, mentalmente - confesso- desejar que venha a ser eu a desembrulhar aquele objecto em concreto. Sossego a consciência dizendo a mim própria que eles se calhar nem reparam...)

E, para além  do mais, os jornais proporcionam o almofadamento (😁trocadilho não intencional) apropriado para os meus objectos, portanto tenho de aproveitar os recursos todos!

De maneiras que, está uma pessoa a embrulhar pratos e loiça em grandes manchetes e volta e meia salta-lhe aos olhos, mesmo sem querer, "mulher completa" e a gente, já com o corpo moído das lides domésticas e encaixotantes, começa a pensar  completa sou eu que já aviei quatro gavetas e mais uma dúzia de caixotes!

Portanto, embrulha  talher, envolve copo, volta e meia, mais bundas roliças e mamas xxl com estrelas a tapar a intimidade (???!!!). Viro a página para esconder as vergonhas e continuo a trabalhar.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Mega gaveta da tralha

Estão a ver aquela gaveta da tralha?
(Toda a gente tem uma, mesmo os mais arrumadinhos)
Aquela que dá tanta neura organizar que deixamos que ali impere o reino do caos e da desordem?
Ando a preparar a mudança, a empacotar trastes e tarecos e o que eu sinto é que a minha casa é uma gigante gaveta da tralha que a gente desbasta e desbasta sem fim à vista...

Sinto-me como aqueles acumuladores dos programas do TLS, os "hoarders", que passam a vida a acumular tralha, às carradas, aos montões, até ao impossível, de forma que ficam com as casas atulhadas até ao tecto e não conseguem transitar.
Depois, ou as autoridades sanitárias intervêm, ou um filho pede ajuda à televisão, ou a produção do programa dá com eles e vai lá ajudá-los. 
Vai lá uma senhora organizadora, tipo um upgrade de mulher da limpeza e que, por isso, tem nomes pomposos do género "personal organiser" ou qualquer coisa coach - o que simplesmente quer dizer que ela está ali para se livrar daquele lixo todo e dar a volta ao miolo do acumulador para que deixe deitar coisas ao lixo e para que não volte a acumular.

Pois bem, eu tenho passado os dias a seleccionar, guardar, rasgar, separar. Nessa dialética interna, parece que eu sou as duas personagens ao mesmo tempo - a que acumula e a que limpa. Sinto que tenho deitado metade da minha vida ao lixo, por vias do papel, o que é simultaneamente libertador e angustiante. (A triagem é difícil, mas o critério tem sido: na dúvida... lixo!)

A diferença é que nesses programas, a senhora leva uma equipa inteira de homens atrás e uns contentores gigantes para aliviar o entulho. Ora, no meu caso, é aos saquinhos de compras de cada vez, escada acima, escada abaixo, toneladas de papel, centenas de vezes para o papelão; fora as sacadas de roupas e brinquedos para instituições - é capaz de se vir a tornar um bocadinho extenuante!

Quem nos conhece bem, sabe que até temos tudo muito organizado cá por casa; mas a verdade é que dezassete anos e dois filhos depois...pesa! Juro que não volto a dizer que não tenho nada para vestir e também afirmo (no impulso do momento, mas sem jurar) que não volto a comprar nem mais um livro!Arre, que pesam!!!!


quarta-feira, 5 de julho de 2017

Tributo à minha avó

28/8/98*

     Triste. Muito triste. Infinitamente triste. A alma da avó cansou-se da vida e partiu. Sinto um aperto muito forte no peito, mas mal consigo chorar. A avó morreu e não percebo muito bem o que isso significa. Só sei que dói.

      Note-se que eu não tinha nunca lidado com a materialidade da morte. O carro fúnebre. O caixão que se fecha; o lençol que cobre o corpo. O cheiro a flores na igreja. as condolências de dezenas de familiares e amigos próximos que eu nunca vi. Acho que me prendeu mais tudo isso do que a perda DELA. Como um puto que vai pela primeira vez a um aeroporto e fica fascinado pelos aviões. O fascínio em mim foi espanto e terror.
     Primeiro aquilo a que chamam "velório" - tinha velas, de facto, talvez daí venha o nome. Porque velar pela minha avó era tudo o que não se passava naquele espaço. Não entrei - não tive força. Além do mais, lá dentro falava-se da vida, do trabalho; trocavam-se beijinhos; mostravam-se fotografias e até se atendiam telemóveis. Não se respeitava a minha avó. O seu silêncio. A sua despedida. Fiquei à porta, num cantinho donde a podia ver e rezar. Fechei os olhos para estar com ela pela última vez em presença e lembrei-me de muitos momentos, desde pequenina. Finalmente lágrimas, mas devagar, quentes e calmas, na minha face, como um abraço da avó. Chorei, mas em paz - quase feliz. Um calor interno, uma quase alegria. Fui desperta deste estado-paz por uma estranha que me perguntava a causa da morte, a idade da avó e se era esposa daquele senhor velhinho que ali estava "coitadinho". Por isso a SIC faz milhares de escudos com "Perdoa-mes" e afins: as pessoas têm, realmente, um interesse mórbido pelo sofrimento dos outros. Lá respondi com acenos de cabeça e monossílabos, banhada em lágrimas como convém à situação e à senhora, que aproveitou a ocasião para se sentir um ser humano maravilhoso e uma cristã exemplar, consolando-me (Quem é que precisava de consolo?) com os clichés adequados do tipo "É o que a vida tem de mais certo" e "estava na sua horinha", tudo no tom lamechas que se sabe.
      Que circo! Apetece mandar a pobre senhora à merda. Que raiva! Porque é que se passa a vida a fingir que se sente alguma coisa ou, pior do que isso, a acreditar que se sente alguma coisa?? Não suporto este teatro. Arte, sim, mas não na vida. Não suporto os olhares piedosos que lançam ao meu avô. Ele não é coitadinho: durante anos amou e foi amado por esta mulher excepcional, teve filhos com ela, abusou da paciência dela (e isto é uma redundância relativa ao verbo amar que já usei). Coitadinho? Não. A ser-se rigoroso o avô é um sortudo. Pieguices fortuitas! Compaixão! Ide mas é para casa amar com verdade quem deveis amar, deixai-nos com a nossa dor.
     Beatas. Também me irritam as beatas. Chego ao pseudo velório e uma criatura prestável dispõe-se a rezar um tercinho pela pessoa que ela não conhecia, mas que era, com certeza, uma santa! Mordi os lábios de raiva. Vim cá para fora para não lhe ouvir a voz melosa. No final do "tercinho", começa a metralhar-nos com um discurso catequístico, excertos de bíblia colados à pressão, à mistura com elogios à morta que nem conhecia. Não lhe bato - teve sorte. despeço-a, interrompendo-a com um Boa Noite-e-Adeus gélido. Ainda se demora. Conta a morte do seu paizinho que está no céu. Detesto-a. Haverá sempre assim intrusos nestes momentos sérios? Acabo por perdoar a mulher - é a "profissão" dela - mas encontro, finalmente, o silêncio desejado. É noite e agora só quem te ama está contigo, avó. Não há berros ou pranto, mas despedimo-nos de ti cantando e isso é bom. É um momento confortável. Triste, mas quase de felicidade. porque há paz. Como tu gostas.

     Funeral. Um drama maior. O adeus último. A missa. O cemitério. Já estou surda aos telemóveis a tocar em plena igreja; já não escuto o encorajamento de pessoas que não me conhecem, mas estão solidárias comigo. Só me sinto triste. Só ouço a tristeza do meu pai. E a minha., cá dentro. Também ouço a avó. Os conselhos. As confidências. 
     No final do dia, recupero os risos da avó. A Ana lembra-me do bom humor que herdámos dela e consigo sorrir. Sinto-me bem com essa lembrança: o sorriso da avó. É essa chama que tenho de manter viva dentro de mim. 

*Texto escrito em 98. Recuperado hoje, na minha limpeza à garagem.

Limpar a garagem

Ando há dois dias a arrumar a garagem. 
A garagem é a minha alma remota, as memórias que o meu cérebro não guardou, emoções há muito esquecidas.
E ainda nem abri os diários. (Meeedo).

Do que falo é dos cartapácios da universidade, os dossiers de estágio, as capas de arquivo com apontamentos da faculdade - páginas já muito amarelecidas, com as letras coladas ao plástico das micas e a brindar-me com pó e ácaros para que não ouse folheá-los. Não o faço. Esses dossiers foram em massa para o ecoponto: Fonética e Fonologia; Literatura Inglesa; Estudos Portugueses; Psicologia do Desenvolvimento; Teoria da Literatura; História e Filosofia da Educação; entre outros. 
Trouxe apenas para cima a capa de Linguística, para mostrar aos meus filhos o que era um caderno brioso e organizado. Não deram muita importância. "Porque é que escrevias isso tudo à mão?" Pois! Lixo com aquilo também!
Apesar de eu não gostar de acumular tralha, fiquei um pouco nostálgica ao remexer naqueles pedaços de juventude. Estava ali a aluna marrona e responsável que fui; horas de empenho a queimar pestanas. Enchi-me de racionalidade - quando é que eu vou, alguma vez, voltar a isto? NUNCA! Se, eventualmente algum dia precisar de consultar estas matérias, não é aqui que virei pesquisar. Para além do mais, muito estará desatualizado. Portanto,  enchi dois sacos fortes e livrei-me de tudo.
Guardei apenas o certificado do Prémio de Mérito Escolar. Aquele que me pagava as propinas. Só assim consegui sustentar o curso. Com o meu empenho. Nessa altura, na UM (Universidade do Minho) quem tinha bom aproveitamento era premiado com isenção de propinas. E assim terminei a licenciatura.

A seguir, foi livrar-me de dossiers do professor, registos de avaliação antigos, exames e testes, fotografias de antigos alunos. 
Deitei fora quilos de alunos e dezassete horários laborais equivalentes ao meu tempo de serviço! 
Tantas escolas, tanto trabalho, tantos alunos... disciplinas que já nem existem: Técnicas de Tradução do Inglês; Estudo Acompanhado; programas que se alteraram entretanto. Já trabalhei em todos os níveis de ensino, do 1ºciclo ao 12ºano; com crianças, adolescentes e adultos; ensino recorrente nocturno; tantas cidades corridas: Braga; Bragança; Guimarães (Ronfe); Mogadouro; Macedo de Cavaleiros; Elvas; Vinhais; Vimioso...

Depois encontrei pilhas de cartas. Não li nenhuma. Mal abri essa caixa de Pandora, fechei e decidi guardar. Pensei não tens tempo para isto agora. A missão é descartar. Se leres não conseguirás. Fica.

Encontrei ainda mensagens de amor, num bloco pequenino. Da altura em que o nosso amor era novo e imaturo e eu copiava as SMS para as não perder. Mensagens ridículas, como diria Pessoa, de outra forma não seriam de amor. Arrancaram-me um sorriso. Já crescemos tanto daquele ponto.

Encontrei materiais de imensas acções de formação; as minhas coisas de quando fui em Erasmos para a Bélgica; os cadernos de apontamentos do Mestrado; RESMAS de fichas de trabalho e testes que elaborei; exames de equivalência a frequência;  matrizes, critérios de correcção; grelhas de avaliação...

Comecei a sentir-me cansada só de remexer. Parecia que estava a ver ali a minha vida toda, em papel, a passar-me pelas mãos a um ritmo alucinante. Ocorriam-me pensamentos tristes, por exemplo, já trabalhei tanto, já vivi tanto, estou cansada.

Para não ficar deprimida, encerrei os trabalhos, carreguei os sacos cheios para o ecoponto e lancei com vigor aquelas toneladas de papel  lá para dentro, para nunca mais. No fim, senti-me aliviada e limpinha.



domingo, 2 de julho de 2017

Copo D'àgua - Série expressões idiomáticas


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Inicio aqui hoje uma série de reflexões sobre expressões portuguesas caricatas ou, a meu ver, curiosas. Daquelas que teríamos dificuldade em explicar a um estrangeiro, assim à letra, ou sobre as quais nem um português de gema saberá explicar a sua origem.

Ora bem, Copo D'àgua é das tais!
Normalmente, como é sabido, designa a parte dos comes e bebes (não raro bebes mais do que o que comes, mas adiante) nas festas, especialmente casamentos, mas também batizados, comunhões e afins. Diz que agora também já contratam "Copo D'àgua" nos divórcios, sinais dos tempos, siga a rusga.

Não é que vão apelidar de Copo D'àgua um fenómeno social em que: (sigam o meu raciocínio)

se bebe como aperitivo - Martinis (que é como quem diz vermute italiano), branco ou tinto, puro ou com casca de limão, com cerveja ou com cola; Vinhos do Porto (Branco, Rugby e Tawny) e da Madeira; licores e licorosos; cocktail variados, refrigerantes, cervejas e vinhos brancos antes da refeição;

se emborca mais Vinhos brancos e tintos (raramente rosés), maduros ou verdes - durante a refeição;

se enfrasca digestivos - bebidas brancas generosas, litradas de whiskey, Gins diversos, aguardentes, mais licores e outras mezinhas alcoólicas que não saberei nomear;

se corta o bolo regando com espumante ou champanhes a gosto;

e, para finalizar, se bebe café com cheirinho...

É que eu realmente não estou bem a ver onde é que entra a água, só se for para lavar os copos!!!
Ou então para curar a ressaca, aí água das Pedras, no dia seguinte!!!

P.S.
Há uma explicação que não me satisfaz aqui. Alega que a expressão é um eufemismo para atenuar o facto dessas refeições serem muito onerosas para os anfitriões...

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Tranquilidade

Foto de Racheous.Uma paixão.
Um emprego.
Uma amizade.
Um negócio.
Um casamento.


Se o preço é a tua paz...
é demasiado caro.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Danças gitanas, beijinhos e abraços

Hoje despedi-me da turminha de que falei aqui.
Parece-me que ainda foi no outro dia que ali cheguei e, afinal, criámos tantos laços, que já custa partir.
Hoje foi uma aula de encher o coração. Levei-lhes gomas, escrevi-lhes mensagens de despedida nos cadernos, recebi abraços, beijinhos e danças. 
Nem sempre foi fácil, mas sinto-me - e disse-lhes- muito orgulhosa do que conseguiram. 
Não obstante as contingências, desde falta de pontualidade e assiduidade a carências económicas diversas, mas principalmente a ambientes familiares complexos, abandonos, traumas e mais uma série de eteceteras...
Apesar de todo esse background e da própria dinâmica conflituosa da turma - não havia dia sem rixas, pragas ou ameaças -  muito crescemos, todos, ali.
Cumpriu-se o programa na totalidade, lemos livros em inglês, fizemos projectos manuais lindíssimos, ensaiamos canções e, acima de tudo, várias vezes tivemos de nos ajustar para viver em comum. Uso o plural porque aprendi muito com eles. Tive de me reinventar, muitas vezes, para levar o barco a bom porto. 
Agora já estávamos em sintonia:
Trabalhar, quando é para trabalhar - cada um ao seu ritmo e nas suas coisas ou a pares, porque um grupo destes dificilmente responderá como "turma" 
E  conversar, desabafar, debater, negociar... muito, porque assim fazia parte.

Querem um exemplo?

Uma manhã, chega lá a Bernardete e diz-me:
"Professora, a partir do dia dezoito já não sou sua aluna..."
"Oh, então porquê?"
"Porque o meu pai recebeu um papel do tribunal a dizer que temos de sair do terreno até essa data ou ele vai preso. Já viu? Acha bem? Moro lá desde que nasci..."

Olho-a profundamente nos olhos e sei que gosta de mim e que espera empatia com o drama que está a viver, mas em segundos decido que ela também deve ouvir, da parte de alguém que respeita, a outra versão da história. Digo-lhe, com suavidade, e medindo as palavras como quem pisa brasas a ferver.

"Sabes, minha querida, eu entendo que isso seja difícil para a tua família, que vos custe mudar de casa, mas o terreno pertence a alguém e essa pessoa pode estar a precisar dele..."

Ela, olhando-me com aqueles olhos amendoados gigantes, a implorar anuência, compaixão:
"Já viu, acha bem? Despejar uma família? E a senhora fazia isso, diga lá, era capaz de fazer isso?"

Comoveu-me aquela criança, a ver em mim uma bondade que não tenho, a supor-me virtuosa e piedosa, a ler toda aquela situação à luz de uma cultura tão distante da minha... hesitei, mas achei que era o momento certo para estimular o espírito crítico da menina.

"Olha, não sei, depende. Se o terreno fosse meu e eu precisasse dele, por exemplo, para fazer uma casa para o meu filho, tinha de conversar convosco para arranjar uma solução, não é? "

Toda a expressão facial dela mudou. Durante uns instantes, sei que ela seguiu o meu raciocínio e aquilo lhe fez sentido.

"Nós não sabemos se a senhora precisa da terra, ou de vendê-la para ganhar dinheiro para qualquer coisa que lhe faça falta, sei lá..."

Disparatou.
"Ah! Precisa, precisa! Precisa agora! Ela é rica! Num lhe interessa nada; nós é que temos de ir viver para outro sítio ou levam o meu pai para a prisão...onde é que já se viu? C'os seus mortos!"

Mas eu sei. Que, durante uns segundos, houve ali uma centelha que brilhou. Ela viu as coisas de outra perspectiva e ouviu-me. Foram precisos muitos meses  para que me ouvisse desta forma, mas consegui.

Hoje, não me queriam deixar partir. Agarradas a mim  como se sempre tivesse sido fácil. Não foi. Tive de bater o pé, muitas vezes. Dar com uma mão e tirar com outra. 

Guardo no coração aquelas histórias difíceis e sinto orgulho no trabalho que desenvolveram, desenvolvemos.

Para mim, confirmação da grande aprendizagem de vida que me serve pessoal e profissionalmente: Todos andamos no mundo à procura de validação. Se respeitarmos e validarmos o outro, seremos respeitados também.  

Depois de um ano a ouvir pragas - Uma benção, neste recado que transcrevo: 
" O mais engraçado foi não ter precisado de um beijo para gostar tanto de si!
O Espírito do senhor sempre a conduzirá, segure na mão dele e vai!"





segunda-feira, 19 de junho de 2017

Fogo que arde PARA se ver

Resultado de imagem para luto símboloChamar-lhe incêndio é insuficiente.
A tragédia de Pedrogão.

Incontornável, a chamar-nos à realidade 

de uma nação florestal que há anos arde no seu próprio lume

de um território arborizado e a mato, em que os meios de Prevenção são insuficientes ou ineficientes ou ambos

de um país cujo interior é desertificado e, consequentemente, mais vulnerável

Mas, também e acima de tudo, que a tragédia de Pedrogão.
nos chame à realidade pungente

de corpos de intervenção incansáveis,
que arriscam e dão a sua vida para salvar outras

de uma sociedade civil solidária e pro-activa
que não se limita a sofrer em frente à televisão,
mas que age, que se une, que se move
(este fogo de camões
esta paixão)
este fogo interno que nos arde cá dentro sem se ver
mas que nos move, nos impele, nos faz aguerridos, destemidos,
todos nós, padeiras de aljubarrotas, nas crises
a arregaçar as mangas da nossa portugalidade
de altruísmo e vontade que leva tudo à frente.

de instituições que respondem,
acolhem e afagam sobreviventes e desprotegidos
pavilhões que se abrem
mantimentos que se distribuem
abraços que se dão

de equipas médicas e técnicos e psicólogos
que ali estão, como podem, para sarar feridas - por dentro e por fora

de empresas e cidadãos anónimos
que contribuem com donativos,
boa vontade e braços para trabalhar.
(toneladas de águas e bebidas, caixotes de fruta, pilhas de alimentos para armazenar e distribuir - muitas horas de trabalho e mãos disponíveis para ajudar).

de escolas
que abrem de novo os portões, no rescaldo (ou antes dele)
para que as crianças retomem o seu quotidiano
ou, pelo menos, sejam afastadas dos "teatros de operações"
termo que vem dos cenários de guerra e designa o ambiente das trincheiras.

Comove-me que a escola se tenha proposto abrir as portas da paz para as crianças.
Talvez por ser professora me tenha tocado muito este gesto. Nem sei expressar bem isto.
Abrir a Escola. Para as crianças. Se refugiarem do caos. Voltarem a estar juntas. Em paz.

Ou seja, bombardeada com relatos e imagens dramáticas, desejo sublinhar os traços de humanismo, boa-vontade, solidariedade e esperança que coei de tudo o que vi e ouvi.

Quanto ao fogo, que a tragédia de Pedrogão - aquele inferno absurdo e sem sentido com tantas vítimas a lamentar- marque um ponto final neste rastilho em que ardemos há décadas.



sábado, 17 de junho de 2017

Festival Literário de Bragança


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Em primeiríssimo lugar, louvar a iniciativa; ponto final.

Programa aqui.

Estive no curso "Literatura e Imaginação", com Gonçalo M. Tavares; um exercício interessante e gratuito. Um privilégio, portanto.

Por mais que pareça infrutífero e dispendioso apostar em eventos culturais deste calibre, que depois parecem não corresponder ao nível das plateias semi vazias; há ter em conta que:
1) a captação de públicos leva tempo a sedimentar-se;
2) festivais literários sempre foram e sempre serão eventos para um nicho bem definido e, regra geral, restrito.
Por tudo isso, organizadores, pessoas a cargo, entidades impulsionadoras e patrocínios... há que insistir. 

Críticas... aos de fora.
Senhores escritores e senhoras escritoras pagos-para-cá-virem, convidados, não generalizando (porque não foram todos), mas também não particularizando a questão:
NÃO vos fica bem desdenharem da cidade-hospitaleira, gracejarem num tom jocoso-condescendente que "Do Tejo para cima não conhecem nada..." ou terem perguntado "Como é que eu vou para aí?"; apetece responder venha de barco, ou a nado, ou se achar cansativo venha de burro, que ainda é o nosso único meio de transporte.
Lamento, mas não vos fica bem. Eu, que até nem sou de cá, e me considero uma mente arejada e viajada, desgostei desse cosmopolitismo balofo, a roçar o verdadeiro provincianismo. Vieram falar-nos das grandes viagens que fizeram para se "inspirarem" para escrever e demonstraram um profundo desconhecimento do nosso país, o que me parece uma afronta à própria Portugalidade que vieram defender.
Enfim, será percepção minha. Acredito que a humildade é virtude dos mais sábios. E acredito que a verdadeira literatura é universal. Por isso pode ter raízes numa tribo primitiva num qualquer ilhéu recôndito do mundo, ou na vizinha do 5ºesquerdo, ou no Afeganistão ou em Freixo-de-Espada-à-Cinta. A essência humana com que labora a arte é semelhante no mundo inteiro.

Destaco Inês Pedrosa. Simplicidade e larga experiência não só como escritora e jornalista, mas como pessoana e directora da Casa de Pessoa. Uma conversa aprazível, despretensiosa e rica, a fechar com chave de ouro este certame.

Parabéns pela iniciativa!

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Algo de errado

Na turminha das ciganas  elas não deixam de se abismar com a minha...magreza(?!)
Suponho que as mulheres adultas com quem lidam são todas mais cheias do que eu. 
Passaram o ano  a surpreender-se. Eu tirava um casaco e aí vinha um "tem a cintura tão fininha" ou um "está tão magrinha..."; não interessa. O meu ponto é: para elas algo de errado se passa comigo! 
Hoje perguntaram-me quanto pesava 
("lá vamos nós outra vez, pensei)
e, de imediato,
se tinha algum "mali"
"Como assim?"
"Tem alguma doença?"
"Penso que não; já sou eu assim há muitos anos, saio aos meus pais..."
tentei rematar a conversa para avançar
"Então deve ter algum mali, botaram-lhe os olhos ou assim"
E logo outra:
"Podia ser ruindade mas a senhora é boazinha, por isso foi pósto (mau olhado, suponho)"

Era um litrinho de água benta para estas bandas, por favor... a ver se eu engordo!

sábado, 3 de junho de 2017

A geração cuidadora

Hoje venho falar para ti, mulher cuidadora, submersa pelas obrigações da maternidade de descendentes e ascendentes.
Estás naquela fase da vida entalada entre seres mãe dos teus filhos e mãe dos teus pais. 
Desdobras-te em múltiplas e sentes que falhas, que não és omnipotente, nem consegues apagar os fogos todos de uma vez. 
Queres ajudar, multiplicas gestos, atenções e afectos, mas por mais que faças nunca sentes que és suficiente. Mas, sim, és.
Quando atendes os teus pais queridos, na fragilidade da sua velhice, na autonomia que o tempo roubou, estás à altura. Os ossos frágeis, a memória que falha, os movimentos lentos, as contrariedades do corpo gasto pela vida, a natural decadência a que a passagem do tempo indubitavelmente nos destina têm eco na tua presença, nos teus cuidados, no teu afecto. 
Vê se me entendes, nunca falhas, nem que falhes. 
Sentes que a tua presença aos teus pais rouba presença aos teus filhos, mas é uma equação impossível ou de resolução difícil, pelo menos, no teu íntimo, se assim a colocares.
 Escuta, sossega! A ausência que te pesa na alma é um legado aos teus filhos. Vão crescer percebendo que amaste e acompanhaste quem amavas até ao limite das tuas forças. Vão crescer nessa partilha. Maturar em humanismo e atenção ao outro. Vão aprender a descentrar-se; isso é tão raro nos dias de hoje e uma aprendizagem vital; talvez o melhor legado que lhes deixarás.
Quando a balança pesa ao contrário, saberão os teus pais que te educaram para seres uma excelente mãe, que está ao lado dos filhos e assume sempre essa responsabilidade.
Agora... não é fácil, não.
Esta geração cuidadora, entalada entre avós e netos, quando se assume como tal, é um exemplo de dignidade humana e altruísmo. Muitas há, da tua idade, que o não cumprem. Arrumam tudo em instituições e vão à vida, sem problemas de consciência. Os filhos na escola, que agora, convenientemente, até é a tempo inteiro; os pais nos lares, que "estão lá tão bem". Depositam a carga e vivem mais leves.
Tu, não. Vê-se-te nos papos dos olhos a exaustão premente. Profunda e pesada. Compreendo-te.
Vejo o que te propões fazer e, digo-te, é, no mínimo, hercúleo.
Para seres cuidadora tens de cuidar-te também. Arranjar "espaço", bolhas de oxigénio. Inspira, expira - renova a tua força e procura apoios. Não tens de fazer tudo sozinha. Cuidares de ti é essencial para cuidares de todos os que amas. Essencial.