terça-feira, 14 de novembro de 2017

Vai-te encher de moscas

Já falei sobre isto anteriormente.
Resultado de imagem para vai-te encher de moscasVoltar ao assunto significa duas coisas: primeiro, que a luta continua; segundo, que a minha vida é tão desinteressante que não arranjo tópico menos prosaico sobre o qual me debruçar.
Enfim, MOSCAS.
Começo a perceber por que razão "Vai-te encher de moscas" é uma praga da pior estirpe. 
Haverá ruído mais irritante do que o zunir das moscas?
Elas a voar aos pares, em grupos, em bandos?
A gente a mirar e a acertar pontaria para uma singela mosquita poisada num espelho e assim que disfere o golpe e ela tomba, saem de lá mais duas, solidárias, evidentes, arrogantemente presentes... argh!
Eu acho que elas já me conhecem e passaram a palavra e foram buscar reforços a todas as vacarias da vizinhança e arredores. De certeza. Correu o boato. É uma conspiração de asas zumbidoras.
Eu, concentrada, de olhos esbugalhados e mata-moscas na mão, prestes a eliminar a próxima vítima e dou de caras com a surpresa da vizinha, amedrontada a tentar perceber o motivo do meu ar ameaçador. Figuras ridículas que um gajo faz por causa das manchas negras voadoras!
Argh!
A esfregar as patinhas...
Argh!
A deslizar
nas mesas,
nos balcões,
nos candeeiros,
nos vidros,
em todo o lado...
Socorro!
Nunca como agora,
eu,
à espera que a mosca pouse...
tensa, braço em riste, sentidos alerta, coração aos pulos, dentes cerrados, concentração ao máximo, olho fixo...
deve ser assim a caça;
mas esta é inglória:
mato uma, vêm mil ao funeral!
Ah, ignomínia!
Ah, infâmia!
Ah, desplante!
Ah, audácia vil!

E se "não é com vinagre que se caçam moscas",
então com que raio é?
Alvíssaras a quem encontrar a resposta!

domingo, 5 de novembro de 2017

Ó Dóóóóóna!


Resultado de imagem para plumber whistling clipart No outro dia chamei cá o senhor para compor o autoclismo que pingava.

(Eu tenho para comigo que os canalizadores são homens muito felizes. Só podem ser. Conhecem algum que não assobie enquanto trabalha? Quantos de nós se sentem tão à vontade no exercício da sua função profissional que possamos dizer ter desejo de cantarolar ou assobiar?

Felizes e bem sucedidos. Por que não?
Bem aventurados os homens ou as mulheres que sabem cuidar das canalizações.
Ajudam a resolver a vida das pessoas, não têm mãos a medir, pelo que devem facturar bem e a gosto, gerem os seus horários a seu bel prazer. Invejo-os. 
Para além do mais, admiro-os. São daquelas pessoas. As máquinas falam com elas, olham para um dispositivo e percebem logo a engrenagem, a mecânica da coisa, detectam o erro, sabem compor. Eu considero isso extraordinário, especialmente porque a mim, a única coisa que as máquinas me dizem é que já fiz m***a outra vez e tenho de desembolsar de novo. É - literalmente- o preço a pagar por ser aleijadinha das mãos e surdinha dos ouvidos para escutar os desalinhos de motores, canos, torneiras, porcas e parafusos.

Mas, enfim. Adiante.)

O guru da entorneira lá veio escutar a gota que me assola as noites a pingar na sanita. 
(Cá em casa chamamos entorneira às torneiras. Foi a Maria que apelidou em pequena e, a meu ver, muito bem pois é o que faz - ENTORNA)

Deixei-o lá a trabalhar e desci para as minhas lides (roupas, molas, estendais e afins). 
O homem bulia lá na casa de banho há um bom quarto de hora sozinho, quando me pus a imaginar.
(eh pá, não! Não se prestava a esse  tipo de fantasias!)
A gente não percebe nada da poda. Eles levam-nos como o diabo esfrega um olho, se assim o entenderem. Na volta aquilo era super simples, já está mais que pronto e está o homem a engonhar, só para cobrar honorários que se vejam. 

(Há que desculpar-se o meu mau juízo, mas aqui entre nós que ninguém nos ouve, já alguma vez contrataram uma reparação destas e o conserto levou apenas cinco minutos? NÃO!A coisa prolonga-se...tem que dar tempo para assobiar pelo menos um cd completo do Tony Carreira, alto e bem orquestrado como se a nossa casa de banho fosse o Olimpiá de Paris!!!!)

Então, dizia eu, pus-me a fazer o filme: a esta hora já o tóclismo está mais que pronto e está o homem, sentado na tijoleira branquinha, a dar uns toques com a chave de fendas na parede, a pousá-la no chão para que eu oiça que estão a decorrer os trabalhos...

Ocorre-me que lá esteja bem sentadinho, quiçá a fumar um cigarro ou a mesmo a comer uma sandocha com bifana e a emborcar uma bejeca, enquanto, volta e meia, bate com as ferramentas no chão ou interrompe o assobio para suspirar muito alto ou fazer um gemido de quem está a aparafusar com força, só para fazer parecer que aquilo está a ser custoso e árduo... sabendo a gente que só vai ser penoso mas é para mim, que vou pagar!

Rio-me de imaginar que o homem pudesse mesmo estar a fazer a fita das ferramentas no soalho e apetece-me ir lá acima, surpreendê-lo a meio do panado de porco. Não tenho tempo. Ele clama:

"Ó dooooona!"
"Está prontinho!"

Olarila!
Já não me safo de:
ser chamada por dona, como as cotas;
ter que limpar as patinhadelas que deixou na casa de banho onde efectivamente esteve a trabalhar
e, claro,
de liquidar a factura das válvulas, bóias, ligações e serviço.
É limpinho!

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Saga Vida Nova - "tou c'a mosca"

Imagem relacionadaPara quem não sabe a nossa vida agora não é unicamente perfumada de maresia.
É que nós não mudámos apenas para a beira-mar. 
Nós mudámos para o CAMPO!!!!
Vivemos numa aldeia, onde,
consoante os ventos,
por vezes,
cheira a vacas
ou a estrume
ou a milho ceifado.

Ora: campo - moscas!!!!!!
MOS - CAS!!!
Pegajosas,
zumbidoras,
omnipresentes,
o raio que as parta!

Desde o primeiro dia declarei guerra doméstica e decidi exterminá-las cá de casa.
Tentei de tudo.
Fechar portas e janelas (mas por onde raio é que elas se infiltram????)
Espalhar sal grosso.
Enfiar Ezalos e DumDums em tudo o que é tomada.
Spraizar os compartimentos todos até ao limiar da asfixia...

Nada.

O máximo que consegui foi que andassem por ali meias grogues; finalmente percebi a expressão mosca morta, elas muito lentas, muito arrastosas, a irritar-me ainda mais com a molenguice e a desejar que estivessem literalmente mortas!

Estive prestes a comprar daquelas fitas deprimentes que se penduram no tecto para que elas fiquem agarradas, mas temi pelo meu Pedro...era capaz de ficar lá ele enrolado... melhor não!
Ainda dei com umas raquetes na dispensa que, suponho, as eletrocutariam  e - suponho também - os meus filhos iam adorar andar à raquetada cá por casa; mas as ditas precisavam de um adaptador de tomadas (coisa que, entretanto, ainda não comprei). Portanto, o squash de moscas terá de aguardar.

Então falaram-me na panaceia miraculosa para os meus males, um tal de Biokill infalível, que funcionaria como barreira invisível para impedir a sua entrada indesejada.

Acabo de infestar a casa toda com o spray da minha última esperança, entro na cozinha  e ali as vejo, grudadas nos meus vidrinhos acabados de limpar. Roguei pragas ao biotanga e desatei em investidas veementes de fúria homicida...

Ah! Não há como uma valente chicotada com o mata-moscas.
E quantas inflijo!
Tornei-me uma assassina nata (marta!).
Então quando se põem a esfregar as patinhas mesmo debaixo do meu nariz ou a chiscar nos candeeiros... levam logo uma palmatória que até deixa sangue, algo que se tornou, de alguma forma, perversamente satisfatório para a minha alminha enraivecida! Particularmente prazenteiro é também dizimar uma cópula, os parezinhos de asco que pousam em êxtase na bancada da cozinha e, enfim, assim morrem, com prazer duplo - o meu que interrompe o delas!

Portanto, está aberta a época de caça cá em casa. (Ou o tempo arrefece ou será o ano todo!)
Entretanto, e em bom abono do Biokill, a varejice melhorou. Aparentemente aquilo leva umas horas a produzir efeito e, de facto, se as não elimina por completo, reduz a afluência em grande medida. E ainda bem! É que eu já estava tendo uma luxação no ombro direito de tanto raquetar!

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Saga Vida Nova - Gaivotas

Resultado de imagem para gaivotasUm dos aspectos que agora faz parte do meu quotidiano são as gaivotas.

Vão dizer-me que elas são reservatório de bactérias multiresistentes, que se reproduzem vorazmente e, portanto são uma praga nas cidades costeiras, que ameaçam a higiene pública e que, em época de nidificação se tornam até agressivas... 

Mas o meu espírito romântico aprecia vê-las por aqui e acolá, a rasgar os céus, livres, felizes, ariscas. Destemidas, pata ante pata, no meio das gentes. Lindas na marginal de Esposende, empoleiradas no paredão ou a deambular pela relva ou a planar ao pôr-do-sol ou a manchar o céu em bandos matinais. Ou preguiçosas nos bancos do rio, debaixo da ponte de Fão. Ou na cidade, na Póvoa, a gritar como as poveiras, em disputa com elas.  Gosto.

Hoje mesmo fui almoçar de marmita para a praia. De súbito, fiquei rodeada de aves destemidas, gordas como perus, não para me fazer companhia, mas à espera que as alimentasse do meu manjar. Ri-me da astúcia. Atirei um pedaço de chouriço da feijoada. Desgrenharam-se para o apanhar. Ri-me sozinha, debaixo do sol. Disse de mim para mim própria que também haviam de provar a cenoura e os bróculos estufados... come-os tu! Está visto que não são vegetarianas, manda mas é para cá um naco de bife. Assim fiz. Ri-me, que o deglutiram num ápice, com a cenourinha a continuar reluzente e displicente na areia. Safadas.

As gaivotas da Póvoa já não pescam no mar. 
Pescam em terra. 
(São finas. é mais rentável, menos trabalhoso e mais saboroso.)
Vejo-as nos recreios, depois dos intervalos, assim que dá o toque de entrada, a bicar os restos que os miúdos perderam, entre uma futebolada e a troca de cromos. Grasnam e patinam pelo recinto fora, majestosas, no seu reino, ali é a sua praia, a dos lanches gulosos preparados pelas mãezinhas na noite anterior. Não pescam sardinha. Pescam modernidade. Pães com Nutela e bolachas Oreo.  Gordas, ociosas, obesas, filhas do consumo... Juro que no outro dia uma levava um pacote de leite chocolatado no bico...

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Vida nova

Sei que estão cheios de curiosidade sobre a minha "vida nova".
Antes que me comecem a invejar os pores-do-sol deslumbrantes, a casa espaçosa e as vivências litorais, invejem-me também as angústias e as ansiedades, as noites sem dormir na expectativa de que os miúdos se adaptem a escolas novas e amigos novos, a dificuldade em alinhar rotinas e a flexibilidade mental que criá-las requer. 
Invejem-me antes a força mental que é necessária para implementar uma mudança desta dimensão, a coragem que é preciso para dar o salto, a pontinha de desespero que é necessária para saltar e o jogo de cintura para planar após o salto, sem olhar para trás. Ao sabor do vento. De asas bem abertas e olhar no futuro.
É verdade que a brisa marítima empurra a saudade, que as rotinas escolares e profissionais tomam conta da espuma dos dias, mas saibam que comparamos, sentimos faltas, sentimos saudades.

Vou tentar pôr a escrita em dia e revelar-vos, pouco a pouco, todo o novo que agora vivenciamos. 
Não ainda - por hoje apenas esta nota de saudade.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Putaquipariu Jonny


     

















     Há umas semanas que não escrevo e, hoje, tu atiras-me para o papel. Revoltada comigo própria porque o que te vou dizer aqui e agora já devia ter sido dito, em vida, e não agora que cá não estás para gargalhar e lacrimejar com o texto em tua honra. Mas, enfim, somos egoístas e escrever afaga-me a alma e apetece-me falar-te e já não é possível. (não acredito que já não é possível)

      Em tua memória abrimos uma garrafa de vinho tinto. Eu e o Reno. Ao almoço. Não é que a gente precisasse de desculpa, mas era o que faríamos se nos tivesses vindo visitar e hoje a presença da tua ausência brusca e dura encheu de silêncio a nossa refeição, a nossa voz, os nossos corações. 

Gostávamos de ti, Jonny. Dizíamos-to muitas vezes, com as letras todas e tu respondias de volta, "gosto muito de você, viu? te cuida, garota! E dá um abraço no maridão que eu também gosto muito dele"
 porque eras um homem de afectos 
e depois desconversavas e dizias 
"chega de lamechice, tamos ficando velhos cÁralho!"

     Eu e tu era uma borga. Piadas inapropriadas, brindadas com olhares de soslaio, reprovadores e certeiros, e nós na nossa loucura de outsiders, um pouco de forasteiros excêntricos e desabridos, a gargalhar até às lágrimas, até à urina, indiferentes à imagem social. Saudade, Jonny. 

     Tu, que amavas a minha família, 
pegavas no meu Pedro ao colo para o deixar na Cáritas, a caminho de Vinhais; 
que trocavas dicas de gastronomia com o Reno, de bom cozinheiro para bom cozinheiro; 
que lias e curtias todos os meus textos, mesmo os mais longos e secantes; 
que rezaste pelo meu marido no período crítico; (ou macumbaste ou chamaste os teus anjos, pés de santo; arixás; fontes de luz fosse o que fosse da tua pesada espiritualidade e vontade de ajudar e dar esperança ao próximo)
tu, que nunca deixaste de me telefonar ("eu te quero muito bem, você sabe, né?") mesmo quando foste procurar ser feliz para mais longe;

     Tu, que saltavas em defesa dos alunos,
pela justiça e humanismo,
que eras um professor com P muito grande,
dedicado, competente, exímio nas matérias,
extraordinário na relação com os miúdos,
quantos defendemos juntos em Conselho de Turma!

Tu, que querias endireitar o mundo,
eras perfeccionista e zeloso,
tinhas a casa num brinco,
penduravas a roupa com as molas agrupadas por cores
e alinhavas sempre o cinzeiro para o mesmo lado
na esquadria do quadro da parede.
 

Tu, que lias o Pessoa como a bíblia,
o teu Álvaro de Campos,
o meu Caeiro,
tu que partilhavas poesia comigo
e piadas porcas
e disparates só nossos
e sarcasmos políticos e anti-institucionais.

Tu, que me desabafavas desamores, 
um homem tão extremamente apaixonado e romântico
quanto desapontado e traído.

Tu, que me desabafavas uma escola que te engolia
oprimia e tentava amordaçar o teu espírito livre e criativo.

Tanta, tanta falta me farás, João.
Vou procurar-te, recordar-te, buscar-te 
na nossa Balada do Louco do Ney,
no fundo de um copo de maduro,
na mitologia grega, que desfiavas ao pormenor,
num cigarro ao luar,
e num cantinho que há-de ser sempre teu e que agora arde no meu coração, amigo.

Tu, que amavas a natureza e a vida.
Biólogo de coração.
E partes?

Putaquipariu Jonny

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Saga mudanças - saber de experiência feito

 Imagem relacionadaAgora que estou a acabar de dizimar caixotes
e para aqueles que me foram seguindo nesta saga das mudanças, 
aqui vão algumas pérolas de conhecimento adquirido a braços, suor e lágrimas, 
saber de experiência feito, como dizia O Poeta:

1) a fita cola da loja dos Chineses não serve...
Tem a mesma largura, diâmetro e cor que a desejável, mas não tem a força nem a resistência necessária para as cargas. Ou seja, um gajo sela os caixotes, aquilo tem a cor castanhinha e tudo, mas depois aquela porcaria descola toda, não chega ao destino. A  única utilidade que lhe vejo é caçar moscas desprevenidas - e, mesmo assim têm de ser mesmo daquelas muito estúpidas ou muito grogues. É pendurar umas fitinhas do tecto e esperar que elas lá fiquem presas...

2) a capacidade dos caixotes é um engodo
lá porque aquilo diz que alberga 30 kilos, isso não quer dizer que a gente os vá conseguir sequer levantar do chão...

3) etiquetar ou escrever em caixotes NÃO é perda de tempo
Evita que se tenha de jogar ao ovo kinder na nova casa e que se ande a desembrulhar cinquenta pacotes até descobrir onde raio param as cuecas!Ou aquele urso de peluche sem o qual eles não dormem...

4) sacos do lixo de grande capacidade são imprescindíveis
são óptimos para atoalhados, edredões, almofadas, tapetes, cortinas e até roupa. São óptimos para o efeito alcochoamento da carga - isolam objectos mais frágeis e são fáceis de acomodar na mala do carro.

5) Quando, à chegada, tilinta... está partido!

6) O frango no churrasco é o melhor amigo dos casais em mudanças!

7) O papel higiénico também 
e convém existir - à saída e à chegada.

8) Na casa  de onde partimos parece tudo essencial. Na casa onde chegamos prescindir-se-ia de metade para não ter que desempacotar mais. Aliás, quem já fez mudanças sabe que alguns caixotes ficam provisoriamente para sempre na garagem!

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Aceito, confio, recebo e agradeço

Porque estive na "nossa" praia, porque é verão e pessoas me voltam a falar de ti, porque a saudade aperta. porque se aproxima a data do teu aniversário, não sei.

Há dois dias que tenho o mesmo sonho. Um pouco absurdo, como próprio do onírico, mas nítido e perturbador.

Vejo-te na praia, banhada de luz, sob um sol intenso, a fazer um valente serviço de volleyball em suspensão. 

E é ali. Aquele momento. Suspensa no ar, acima da areia, com um movimento pujante do pulso direito que te me traz à consciência e simultaneamente me acorda.

Desperto banhada em suor, com um aperto no peito e confusa, embora, durante o sono, não se trate de um pesadelo; pelo contrário, é uma alegria ver-te ali suspensa a jogar.

No entanto, acordo confusa...desapontada por não ser real, por ser tão curto, por terminar. Na vida real não jogavas volley, mas não é que não aceitasses o desafio, se to colocassem. 

Por outro lado, tu representas para mim aquela energia, aquela vivacidade, aquela força. Por isso, no final do sonho há aquele amargo de boca que a vida nos deixa quando morre alguém muito jovem ou um atleta ou um herói. A gente resigna-se, mas não deixa de pensar que havia ali tanto potencial perdido.Acho que é por isso que me sinto tão incomodada ao despertar.

Todavia, não me queixo. Durante anos estive presa à tua cama de hospital. Percebia o quão traumático isso havia sido para mim, mas irritava-me não conseguir recuar para milhares de experiências igualmente intensas, mas mais agradáveis que partilhámos enquanto mãe e filha.

Agora, ao menos, vejo-te banhada de luz boa, suspensa e em acção. 
Recebo e agradeço. É tudo o que preciso nesta fase.

Poema em linha recta

Álvaro de Campos - Poema em linha recta
Imagem relacionada
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

domingo, 20 de agosto de 2017

Primeiras impressões sobre o futuro

No outro dia fomos a Esposende.
Fazer um reconhecimento de campo mais incisivo - escolas, piscinas, clubes e campos de futebol disponíveis, enfim,  antecipar rotinas para o ano lectivo que vem.
Ainda não era Agosto, a época balnear não estava no seu pico, portanto pareceu-nos tranquilo e saudável.
O que nos saltou à vista:
-  uma marginal fabulosa para caminhadas em família;
- uma cidade planinha para andar de bike;
- actividades na marginal ou no rio: pesca, papagaios de papel; canoagem, kitesurfing...
- um centro histórico limpo, organizado e aprazível;
- uma envolvência muito rural, muitas estufas, muitos milheirais, muitas vacarias, muitos tractores a passar, conduzidos por mulheres valentes e carregados de cebolas.

"Mãe, aqui é tudo ZENDE ou Cávado"

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Princesa enquanto dura

Alguém leva as meninas-de-etnia-da-escolinha-difícil-onde-nenhum-professor-aguenta-muito-tempo a um encontro interescolas numa cidade do distrito.
Resultado de imagem para princesa disney ciganaAs meninas estão tão eufóricas que me contam, estridentes, que vão dançar a outro país.
Alguém pega nelas, leva-as para sua casa, lava-as, veste-as, penteia-as, maquilha-as, arranja-lhes as unhas e perfuma-as. Adorna-lhes os cabelos com flores de papel feitas à mão. Transforma-as em verdadeiras princesas.
As meninas princesas portam-se lindamente em palco (e fora dele).
Nesse dia não há zaragatas, não se insultam, não se agridem. São princesas a viver um sonho partilhado. Porque alguém acreditou nelas e lhes deu uma oportunidade.
Fazem uma exibição magnífica; dançam como princesas das arábias.
Voltam deslumbradas e felizes.
À chegada, uma surpresa comovente. Uma delas tem à sua espera o príncipe encantado que o seu coraçãozinho de nove anos mais deseja e que não vê há três anos. O pai, a usufruir de uma precária.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Anjinhos jolies

Resultado de imagem para anjinho, clipartHoje participei numa procissão à Sra da Assunção, em Santo Tirso. Assisti a uma Missa Campal presidida pelo Bispo do Porto. E devo dizer que ambas as experiências me proporcionaram momentos de bem estar e conforto espiritual.
No entanto, não é a dimensão pessoal da experiência que aqui interessa.

A nível sociológico constatei o seguinte:
- há uma crise de afluência de anjinhos; o negócio está fraco, dizem as alugadeiras de fatos, e já rendeu mais...
- os poucos anjinhos que comparecem falam francês, são maioritariamente filhinhas de emigrantes, que acham jolie, mas não sabem rezar na língua de Camões; isso também prejudica o negócio, segundo as velhinhas piedosas comentadeiras dos arredores;
- há poucos jovens, a meio de Agosto, a subir a serra para orar. Parece que a praia ganha aos pontos e, por isso, a procissão está pejada de cãs e o passo é mais arrastado do que as avé-marias cantadas em vozes cansadas;
- na missa campal há surpreendentemente dois jovens, moços, à minha frente. Cantam como rouxinóis em segundas e terceiras vozes; pelo que desconfio serem seminaristas. Espreito os sapatos e tenho a certeza - sapato preto, clássico, em desuso, são seminaristas certamente. Recrimino-me pela fuga de pensamento do divino e concentro-me nas minhas intenções.
- Desconcentra-me outra vez um casal de meia idade, que saca de uns banquinhos montáveis in loco. Nunca tinha visto tal artimanha e distraio-me, confesso, espanto-me com a engenhoca.
- Terminada a cerimónia, verifico que os docinhos de feira, os salpicões de Lamego e as bancas de trapitos dos feirantes são quase tão aliciantes aos devotos como a restante parte religiosa da festa;
- Constato ainda que os garrafões e o enfardamento no pinhal consolam bem os corpos de espírito saciado.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

"Ninguém faz uma peça sobre o trabalho dos jornalistas?"


Resultado de imagem para jornalista, clipartEu faço. É capaz é de não sair assim muito jornalístico; mas é o meu contributo.

Não és bombeiro, mas quando o alarme soa no quartel, também és alertado, também tens de enfiar umas calças à pressa e zarpar para o meio de florestas densas, lugarejos perdidos, aldeias em chamas, o que tiver de ser.
Não és médico de plantão, mas também acodes urgências, de madrugada, a desoras, quando calha e o dever te chama.
Não fazes a ronda da noite, como a polícia, mas se a coisa dá para o torto, particularmente se a coisa dá para o torto, lá vais tu, atrás das luzes de emergência, cobrir o incidente.

Corres atrás dos factos, 
deixando para trás a tua verdade morna,
os teus em caminhas fofas
e soninhos descansados.
Vais no sentido de um dever, com mil outros a pesarem-te na consciência
como os lanchinhos que ficaram por fazer para o dia seguinte, se houver escola.
Ou ainda quem os irá levar à escola.
Se consegues chegar a tempo para fazer a magia maternal do malabrismo omnipresente: escuteiros, volley, ballet, tpcs e janta.

No entanto, agora vais no sentido de um dever e é esse que te ocupa o cérebro e consome a adrenalina:

Oxalá os factos  que persegues apareçam céleres, claros, sucintos e, de preferência, de fonte fidedigna e confirmada.

Oxalá a neve seja copiosa q.b, para ter impacto visual na reportagem, mas sem impedir os acessos de regresso a casa.

Oxalá as chamas e as labaredas não interfiram com os meios técnicos para emitir um bom directo. Oxalá os olhos não lacrimejem e a voz não se embargue. Nem pelo fumo, nem pela emoção.

Oxalá os políticos não se lembrem de vir todos no mesmo fim de semana, a concelhos limítrofes deste distrito acidentado de alta montanha e distâncias.

Oxalá em Lisboa eles entendam que "dar um saltinho" a Freixo-de-Espada-À-Cinta é capaz de demorar mais do que atravessar a 25de Abril em hora de ponta.

Oxalá o ajuntamento popular em frente ao tribunal não dê sarilhos.

Oxalá a polícia colabore e não exorcize a comunicação social pelos males sociais, quer dizer, oxalá te deixe fazer o teu trabalho, a ti e à equipa, com profissionalismo e ética. (Aqui, pensas, oxalá os colegas tenham a deontologia necessária para respeitar também as forças da autoridade e o seu serviço.)

Oxalá haja tempo para provar os produtos das Feiras que cobres. Venha de lá a boa vontade das gentes, a alheira, o fumeiro, o pão, o azeite e os folares. O nosso povo é hospitaleiro, saca do palaçoulo e racha sempre umas rodelas de chouriço em cima da carocha do pão.

Oxalá não seja a última vez que o tiZé da recôndita aldeia estende a mão enrugada e trémula neste gesto largo. Para ti, jornalista no interior envelhecido, muitas vezes, é.




quinta-feira, 27 de julho de 2017

Mobilidade por "Doença"

      Num país em que um professor com sete cancros é chamado a junta médica e considerado apto a trabalhar, dando origem a uma paródia hilariante da equipa de Ricardo Araújo Pereira nos Gato Fedorento (aqui - JUNTA MÉDICA)

há uma região que tem imunidade a juntas médicas, funciona a coberto ou apesar delas,

talvez por ter desenvolvido uma doença autóctone, uma epidemia cavalgante a um ritmo de contágio preocupante que as autoridades não têm conseguido conter. 

Eu suponho que, por este andar, isto venha a tornar-se um caso de saúde pública, mas - como noutras situações catastróficas e de crise - no nosso país acorda-se tarde e mal para os problemas, por mais denúncias públicas e alertas que se façam.

(O assunto não é novo.  Veja-se, por exemplo no Expresso (2015) ou na imprensa local ,d' O Mensageiro de Bragança(2016) ao Jornal do Algarve )

Ironias à parte, o que alguém já apelidou de epidemia transmontana, está muito bem explicado aqui

Eu, fico-me pela ironia.
A meu ver, algo de muito patológico se passa por detrás dos montes. Apesar de, como é sabido, "para lá do Marão"  mandarem "os que lá estão", há-de chegar a altura em que alguém acorde para este fenómeno que a evidência dos números não nega.

Uma centena de professores, deslocados para um determinado agrupamento por motivo de alegada doença sua ou de ascendentes, dava para criar todo um agrupamento novo. Uma centena de professores é o número de recursos de que alguns agrupamentos dispõem para levar a cabo as mesmas metas pedagógicas e taxas de sucesso que os outros.

A mim, levantam-se-me uma série de questões.
A montante:
- da ética de tantos colegas, que a cavalo na chicoespertice ultrapassam os seus pares sem o menor escrúpulo, abusando de um refúgio legal que protege - e bem - os mais fracos e os que mais precisam.
- da conivência de direcções engajadas e comprometidas, frutos e produtores de caciquismos locais milenares e inamovíveis, porque uma-mão-lava-a-outra e hoje-tu-amanhã-eu;
- da seriedade ou do preço de atestados que se passam em massa para o favorecimento pessoal dos amigos e amigos de amigos até 5ºgrau;
- da conivência da classe, que, no geral, assiste e não reclama, pois ou há moralidade ou comem todos e um dia quem sabe não me faça falta também...

A jusante:
- da inoperância de supostas inspecções;
- da conivência ou lascismo do poder central;
- da placidez dos encarregados de educação (com tantos recursos, tais agrupamentos só poderiam atingir resultados de excelência)
- da paz social imperante.

E aqui, avanço. Um dia, este "sistema" há-de estourar por dentro. Não me parece que a rebelião demore muito. Para além das centenas que se vêem ultrapassadas e não conseguem aproximação à residência, hão-de começar a doer-se os que efectivamente têm serviço lectivo atribuído e aturam encarregados de educação tão insolentes como os filhos, e corrigem trabalhos e testes e preenchem grelhas e relatórios e vão a reuniões fatigantes que se hão-de fartar de que os cento e tal MpDs, na gíria "doentes" (sãos) levem uma vidinha boa sem encargos nem responsabilidades. Sem serem chamados à pedra por notas de exames ou por médias internas ou por coisa alguma. É gráfico e flagrante e, repito, há-de estourar. Há toda uma sala de professores cheia durante um intervalo, tudo a tomar o seu cafezito. Toca. Uns, levantam-se e vão trabalhar; os outros, não.

É a vidinha.
Casualmente, ou nem por isso, no dia em que saíram as famigeradas listas roubadas cruzei-me com uma mancheia de colegas que haviam ficado colocados, digamos, não idealmente, mas que me revelaram ter ascendentes dependentes (quem não na nossa faixa etária?), qual trunfo na manga, panaceia miraculosa concursal.

Quem me conhece sabe que sou guerreira na defesa da escola pública. Nada disto a dignifica ou engrandece. Há-de estourar.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

A ficção ataca a realidade (Saga Mudanças)

Resultado de imagem para embrulhar decanterAvança-se na pilha de jornais:
embrulha copo,
envolve decantador
(por que raio é que deitei a porcaria da caixa fora?
acomoda chávena
 - e eis senão quando -
surge a necrologia 
e lá fica a gente, em pausa, apiedada daqueles desconhecidos
- este era tão novo; aquele tinha filhos; esta não ficou lá muito bem na fotografia, bem podiam ter-lhe escolhido outra, ao menos nesta horinha -
a imaginar-lhes vidas, relações, profissões, percursos; enfim, eu escrevia um romance a partir de uma página destas!
Resultado de imagem para conjunto de chá de brincar(Aliás, eu escrevo, mentalmente, enquanto acomodo as coisas nas caixas de cartão.)

As mudanças têm momentos irritantes,
de fazer cócegas nos nervinhos da gente,
como ter de acomodar loiça pequenina das bonecas, tal como se acomodou a grande, da vida real.
De repente, apercebo-me (medo!) - as Barbies, os Nenucos e as Barriguitas estiveram a conspirar contra a minha eficiência. Por conseguinte, no quarto da minha filha,
toda uma outra casa a empacotar,
com direito a roupinhas, calçado, ferramentas, acessórios de cabeleireira, utensílios de puericultura, instrumentos de medicina, electrodomésticos (juro que carreguei com uma máquina de lavar roupa em miniatura)... ou seja, não apenas uma casa, mas várias, uma cidade inteira para dentro de MAIS caixotes. Aaaaghhhh!

A ficção ataca a realidade e a vítima sou eu!!!!

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Entulho erótico*

Resultado de imagem para woman moving house clipartO entulho continua... o embalamento prossegue.
Meter a vida em caixotes e, como diz na imagem, O Lar é onde está o nosso coração, mesmo se não te conseguires lembrar do caixote em que o puseste!

A mente divaga-me, como sempre que estou em tarefas manuais e particularmente nesta com materiais legíveis à minha frente - jornais (para embrulhar)... sou incapaz de não ler!
Então fico a saber, por exemplo, que
Shakira está de regresso a Portugal em 2017;
Cristiano Ronaldo foi criticado pelo novo penteado (e eu nem sabia que tinha cortado a trunfa);
Ficam presos suspeitos de matar empresário (o de Braga, penso, sequestrado em Lamaçães em frente ao filho); Mochilas passam a ser banidas dos concertos;
Autarquias devem 344 milhões de água;
IRS vai baixar para um milhão de portugueses (não deve ser comigo);
Reforços chegam esta semana (antes fosse comigo)!!!

Enfim...
fico a saber coisas que me interessam
e coisas que não me interessam:
tudo me entra pela vista dentro enquanto embrulho e empacoto a casa.


Eu juro que, de início, estava a fazer uma selecção mais restritiva dos itens a empacotar. Mirava, remirava, repensava a utilidade possível de algo que não utilizo há uma duzinha de anos e lá acabava por decidir. Agora a triagem é cada vez mais apertada, na exacta proporção da chegada do prazo da partida e da incomodidade de carregar tanta tralha. No entanto, há momentos em que hesitamos:deitar fora? doar?levar?

De repente, uma relíquia que levanta a dúvida. Lá para o fundo duma das prateleiras mais altas da cozinha descubro aquele fóssil da nossa juventude de jantaradas e borgas entre amigos:

Copinhos chineses de Saqué, daqueles que têm mulheres nuas no fundo que só aparecem depois de vertido o líquido sobre elas.

Rio-me  com a descoberta. Finalmente a bota há-de bater com a perdigota. A ver se embrulho estas relíquias com as páginas de classificados picantes! 

* sequela  deste post aqui

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Esconder as vergonhas

Resultado de imagem para lady packing with newspaper, freeEh pá!

Não sei que me parece estar a embrulhar as molduras com os rostos mimosos dos meus filhos bebés em páginas de anúncios pejadas de nádegas proeminentes ...
(a embrulhar bochechas com bochechas, ocorre-me!)
Eu juro que, de início, rasgava essas páginas com todo o pudor antes de começar a trabalhar, mas agora já estou naquela fase neura de querer acelerar o empacotamento, nem que para isso tenha de utilizar as páginas das bundas reluzentes e demais vergonhas.
(Não sem, mentalmente - confesso- desejar que venha a ser eu a desembrulhar aquele objecto em concreto. Sossego a consciência dizendo a mim própria que eles se calhar nem reparam...)

E, para além  do mais, os jornais proporcionam o almofadamento (😁trocadilho não intencional) apropriado para os meus objectos, portanto tenho de aproveitar os recursos todos!

De maneiras que, está uma pessoa a embrulhar pratos e loiça em grandes manchetes e volta e meia salta-lhe aos olhos, mesmo sem querer, "mulher completa" e a gente, já com o corpo moído das lides domésticas e encaixotantes, começa a pensar  completa sou eu que já aviei quatro gavetas e mais uma dúzia de caixotes!

Portanto, embrulha  talher, envolve copo, volta e meia, mais bundas roliças e mamas xxl com estrelas a tapar a intimidade (???!!!). Viro a página para esconder as vergonhas e continuo a trabalhar.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Mega gaveta da tralha

Estão a ver aquela gaveta da tralha?
(Toda a gente tem uma, mesmo os mais arrumadinhos)
Aquela que dá tanta neura organizar que deixamos que ali impere o reino do caos e da desordem?
Ando a preparar a mudança, a empacotar trastes e tarecos e o que eu sinto é que a minha casa é uma gigante gaveta da tralha que a gente desbasta e desbasta sem fim à vista...

Sinto-me como aqueles acumuladores dos programas do TLS, os "hoarders", que passam a vida a acumular tralha, às carradas, aos montões, até ao impossível, de forma que ficam com as casas atulhadas até ao tecto e não conseguem transitar.
Depois, ou as autoridades sanitárias intervêm, ou um filho pede ajuda à televisão, ou a produção do programa dá com eles e vai lá ajudá-los. 
Vai lá uma senhora organizadora, tipo um upgrade de mulher da limpeza e que, por isso, tem nomes pomposos do género "personal organiser" ou qualquer coisa coach - o que simplesmente quer dizer que ela está ali para se livrar daquele lixo todo e dar a volta ao miolo do acumulador para que deixe deitar coisas ao lixo e para que não volte a acumular.

Pois bem, eu tenho passado os dias a seleccionar, guardar, rasgar, separar. Nessa dialética interna, parece que eu sou as duas personagens ao mesmo tempo - a que acumula e a que limpa. Sinto que tenho deitado metade da minha vida ao lixo, por vias do papel, o que é simultaneamente libertador e angustiante. (A triagem é difícil, mas o critério tem sido: na dúvida... lixo!)

A diferença é que nesses programas, a senhora leva uma equipa inteira de homens atrás e uns contentores gigantes para aliviar o entulho. Ora, no meu caso, é aos saquinhos de compras de cada vez, escada acima, escada abaixo, toneladas de papel, centenas de vezes para o papelão; fora as sacadas de roupas e brinquedos para instituições - é capaz de se vir a tornar um bocadinho extenuante!

Quem nos conhece bem, sabe que até temos tudo muito organizado cá por casa; mas a verdade é que dezassete anos e dois filhos depois...pesa! Juro que não volto a dizer que não tenho nada para vestir e também afirmo (no impulso do momento, mas sem jurar) que não volto a comprar nem mais um livro!Arre, que pesam!!!!


quarta-feira, 5 de julho de 2017

Tributo à minha avó

28/8/98*

     Triste. Muito triste. Infinitamente triste. A alma da avó cansou-se da vida e partiu. Sinto um aperto muito forte no peito, mas mal consigo chorar. A avó morreu e não percebo muito bem o que isso significa. Só sei que dói.

      Note-se que eu não tinha nunca lidado com a materialidade da morte. O carro fúnebre. O caixão que se fecha; o lençol que cobre o corpo. O cheiro a flores na igreja. as condolências de dezenas de familiares e amigos próximos que eu nunca vi. Acho que me prendeu mais tudo isso do que a perda DELA. Como um puto que vai pela primeira vez a um aeroporto e fica fascinado pelos aviões. O fascínio em mim foi espanto e terror.
     Primeiro aquilo a que chamam "velório" - tinha velas, de facto, talvez daí venha o nome. Porque velar pela minha avó era tudo o que não se passava naquele espaço. Não entrei - não tive força. Além do mais, lá dentro falava-se da vida, do trabalho; trocavam-se beijinhos; mostravam-se fotografias e até se atendiam telemóveis. Não se respeitava a minha avó. O seu silêncio. A sua despedida. Fiquei à porta, num cantinho donde a podia ver e rezar. Fechei os olhos para estar com ela pela última vez em presença e lembrei-me de muitos momentos, desde pequenina. Finalmente lágrimas, mas devagar, quentes e calmas, na minha face, como um abraço da avó. Chorei, mas em paz - quase feliz. Um calor interno, uma quase alegria. Fui desperta deste estado-paz por uma estranha que me perguntava a causa da morte, a idade da avó e se era esposa daquele senhor velhinho que ali estava "coitadinho". Por isso a SIC faz milhares de escudos com "Perdoa-mes" e afins: as pessoas têm, realmente, um interesse mórbido pelo sofrimento dos outros. Lá respondi com acenos de cabeça e monossílabos, banhada em lágrimas como convém à situação e à senhora, que aproveitou a ocasião para se sentir um ser humano maravilhoso e uma cristã exemplar, consolando-me (Quem é que precisava de consolo?) com os clichés adequados do tipo "É o que a vida tem de mais certo" e "estava na sua horinha", tudo no tom lamechas que se sabe.
      Que circo! Apetece mandar a pobre senhora à merda. Que raiva! Porque é que se passa a vida a fingir que se sente alguma coisa ou, pior do que isso, a acreditar que se sente alguma coisa?? Não suporto este teatro. Arte, sim, mas não na vida. Não suporto os olhares piedosos que lançam ao meu avô. Ele não é coitadinho: durante anos amou e foi amado por esta mulher excepcional, teve filhos com ela, abusou da paciência dela (e isto é uma redundância relativa ao verbo amar que já usei). Coitadinho? Não. A ser-se rigoroso o avô é um sortudo. Pieguices fortuitas! Compaixão! Ide mas é para casa amar com verdade quem deveis amar, deixai-nos com a nossa dor.
     Beatas. Também me irritam as beatas. Chego ao pseudo velório e uma criatura prestável dispõe-se a rezar um tercinho pela pessoa que ela não conhecia, mas que era, com certeza, uma santa! Mordi os lábios de raiva. Vim cá para fora para não lhe ouvir a voz melosa. No final do "tercinho", começa a metralhar-nos com um discurso catequístico, excertos de bíblia colados à pressão, à mistura com elogios à morta que nem conhecia. Não lhe bato - teve sorte. despeço-a, interrompendo-a com um Boa Noite-e-Adeus gélido. Ainda se demora. Conta a morte do seu paizinho que está no céu. Detesto-a. Haverá sempre assim intrusos nestes momentos sérios? Acabo por perdoar a mulher - é a "profissão" dela - mas encontro, finalmente, o silêncio desejado. É noite e agora só quem te ama está contigo, avó. Não há berros ou pranto, mas despedimo-nos de ti cantando e isso é bom. É um momento confortável. Triste, mas quase de felicidade. porque há paz. Como tu gostas.

     Funeral. Um drama maior. O adeus último. A missa. O cemitério. Já estou surda aos telemóveis a tocar em plena igreja; já não escuto o encorajamento de pessoas que não me conhecem, mas estão solidárias comigo. Só me sinto triste. Só ouço a tristeza do meu pai. E a minha., cá dentro. Também ouço a avó. Os conselhos. As confidências. 
     No final do dia, recupero os risos da avó. A Ana lembra-me do bom humor que herdámos dela e consigo sorrir. Sinto-me bem com essa lembrança: o sorriso da avó. É essa chama que tenho de manter viva dentro de mim. 

*Texto escrito em 98. Recuperado hoje, na minha limpeza à garagem.

Limpar a garagem

Ando há dois dias a arrumar a garagem. 
A garagem é a minha alma remota, as memórias que o meu cérebro não guardou, emoções há muito esquecidas.
E ainda nem abri os diários. (Meeedo).

Do que falo é dos cartapácios da universidade, os dossiers de estágio, as capas de arquivo com apontamentos da faculdade - páginas já muito amarelecidas, com as letras coladas ao plástico das micas e a brindar-me com pó e ácaros para que não ouse folheá-los. Não o faço. Esses dossiers foram em massa para o ecoponto: Fonética e Fonologia; Literatura Inglesa; Estudos Portugueses; Psicologia do Desenvolvimento; Teoria da Literatura; História e Filosofia da Educação; entre outros. 
Trouxe apenas para cima a capa de Linguística, para mostrar aos meus filhos o que era um caderno brioso e organizado. Não deram muita importância. "Porque é que escrevias isso tudo à mão?" Pois! Lixo com aquilo também!
Apesar de eu não gostar de acumular tralha, fiquei um pouco nostálgica ao remexer naqueles pedaços de juventude. Estava ali a aluna marrona e responsável que fui; horas de empenho a queimar pestanas. Enchi-me de racionalidade - quando é que eu vou, alguma vez, voltar a isto? NUNCA! Se, eventualmente algum dia precisar de consultar estas matérias, não é aqui que virei pesquisar. Para além do mais, muito estará desatualizado. Portanto,  enchi dois sacos fortes e livrei-me de tudo.
Guardei apenas o certificado do Prémio de Mérito Escolar. Aquele que me pagava as propinas. Só assim consegui sustentar o curso. Com o meu empenho. Nessa altura, na UM (Universidade do Minho) quem tinha bom aproveitamento era premiado com isenção de propinas. E assim terminei a licenciatura.

A seguir, foi livrar-me de dossiers do professor, registos de avaliação antigos, exames e testes, fotografias de antigos alunos. 
Deitei fora quilos de alunos e dezassete horários laborais equivalentes ao meu tempo de serviço! 
Tantas escolas, tanto trabalho, tantos alunos... disciplinas que já nem existem: Técnicas de Tradução do Inglês; Estudo Acompanhado; programas que se alteraram entretanto. Já trabalhei em todos os níveis de ensino, do 1ºciclo ao 12ºano; com crianças, adolescentes e adultos; ensino recorrente nocturno; tantas cidades corridas: Braga; Bragança; Guimarães (Ronfe); Mogadouro; Macedo de Cavaleiros; Elvas; Vinhais; Vimioso...

Depois encontrei pilhas de cartas. Não li nenhuma. Mal abri essa caixa de Pandora, fechei e decidi guardar. Pensei não tens tempo para isto agora. A missão é descartar. Se leres não conseguirás. Fica.

Encontrei ainda mensagens de amor, num bloco pequenino. Da altura em que o nosso amor era novo e imaturo e eu copiava as SMS para as não perder. Mensagens ridículas, como diria Pessoa, de outra forma não seriam de amor. Arrancaram-me um sorriso. Já crescemos tanto daquele ponto.

Encontrei materiais de imensas acções de formação; as minhas coisas de quando fui em Erasmos para a Bélgica; os cadernos de apontamentos do Mestrado; RESMAS de fichas de trabalho e testes que elaborei; exames de equivalência a frequência;  matrizes, critérios de correcção; grelhas de avaliação...

Comecei a sentir-me cansada só de remexer. Parecia que estava a ver ali a minha vida toda, em papel, a passar-me pelas mãos a um ritmo alucinante. Ocorriam-me pensamentos tristes, por exemplo, já trabalhei tanto, já vivi tanto, estou cansada.

Para não ficar deprimida, encerrei os trabalhos, carreguei os sacos cheios para o ecoponto e lancei com vigor aquelas toneladas de papel  lá para dentro, para nunca mais. No fim, senti-me aliviada e limpinha.



domingo, 2 de julho de 2017

Copo D'àgua - Série expressões idiomáticas


Resultado de imagem para copo d'agua
Inicio aqui hoje uma série de reflexões sobre expressões portuguesas caricatas ou, a meu ver, curiosas. Daquelas que teríamos dificuldade em explicar a um estrangeiro, assim à letra, ou sobre as quais nem um português de gema saberá explicar a sua origem.

Ora bem, Copo D'àgua é das tais!
Normalmente, como é sabido, designa a parte dos comes e bebes (não raro bebes mais do que o que comes, mas adiante) nas festas, especialmente casamentos, mas também batizados, comunhões e afins. Diz que agora também já contratam "Copo D'àgua" nos divórcios, sinais dos tempos, siga a rusga.

Não é que vão apelidar de Copo D'àgua um fenómeno social em que: (sigam o meu raciocínio)

se bebe como aperitivo - Martinis (que é como quem diz vermute italiano), branco ou tinto, puro ou com casca de limão, com cerveja ou com cola; Vinhos do Porto (Branco, Rugby e Tawny) e da Madeira; licores e licorosos; cocktail variados, refrigerantes, cervejas e vinhos brancos antes da refeição;

se emborca mais Vinhos brancos e tintos (raramente rosés), maduros ou verdes - durante a refeição;

se enfrasca digestivos - bebidas brancas generosas, litradas de whiskey, Gins diversos, aguardentes, mais licores e outras mezinhas alcoólicas que não saberei nomear;

se corta o bolo regando com espumante ou champanhes a gosto;

e, para finalizar, se bebe café com cheirinho...

É que eu realmente não estou bem a ver onde é que entra a água, só se for para lavar os copos!!!
Ou então para curar a ressaca, aí água das Pedras, no dia seguinte!!!

P.S.
Há uma explicação que não me satisfaz aqui. Alega que a expressão é um eufemismo para atenuar o facto dessas refeições serem muito onerosas para os anfitriões...

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Tranquilidade

Foto de Racheous.Uma paixão.
Um emprego.
Uma amizade.
Um negócio.
Um casamento.


Se o preço é a tua paz...
é demasiado caro.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Danças gitanas, beijinhos e abraços

Hoje despedi-me da turminha de que falei aqui.
Parece-me que ainda foi no outro dia que ali cheguei e, afinal, criámos tantos laços, que já custa partir.
Hoje foi uma aula de encher o coração. Levei-lhes gomas, escrevi-lhes mensagens de despedida nos cadernos, recebi abraços, beijinhos e danças. 
Nem sempre foi fácil, mas sinto-me - e disse-lhes- muito orgulhosa do que conseguiram. 
Não obstante as contingências, desde falta de pontualidade e assiduidade a carências económicas diversas, mas principalmente a ambientes familiares complexos, abandonos, traumas e mais uma série de eteceteras...
Apesar de todo esse background e da própria dinâmica conflituosa da turma - não havia dia sem rixas, pragas ou ameaças -  muito crescemos, todos, ali.
Cumpriu-se o programa na totalidade, lemos livros em inglês, fizemos projectos manuais lindíssimos, ensaiamos canções e, acima de tudo, várias vezes tivemos de nos ajustar para viver em comum. Uso o plural porque aprendi muito com eles. Tive de me reinventar, muitas vezes, para levar o barco a bom porto. 
Agora já estávamos em sintonia:
Trabalhar, quando é para trabalhar - cada um ao seu ritmo e nas suas coisas ou a pares, porque um grupo destes dificilmente responderá como "turma" 
E  conversar, desabafar, debater, negociar... muito, porque assim fazia parte.

Querem um exemplo?

Uma manhã, chega lá a Bernardete e diz-me:
"Professora, a partir do dia dezoito já não sou sua aluna..."
"Oh, então porquê?"
"Porque o meu pai recebeu um papel do tribunal a dizer que temos de sair do terreno até essa data ou ele vai preso. Já viu? Acha bem? Moro lá desde que nasci..."

Olho-a profundamente nos olhos e sei que gosta de mim e que espera empatia com o drama que está a viver, mas em segundos decido que ela também deve ouvir, da parte de alguém que respeita, a outra versão da história. Digo-lhe, com suavidade, e medindo as palavras como quem pisa brasas a ferver.

"Sabes, minha querida, eu entendo que isso seja difícil para a tua família, que vos custe mudar de casa, mas o terreno pertence a alguém e essa pessoa pode estar a precisar dele..."

Ela, olhando-me com aqueles olhos amendoados gigantes, a implorar anuência, compaixão:
"Já viu, acha bem? Despejar uma família? E a senhora fazia isso, diga lá, era capaz de fazer isso?"

Comoveu-me aquela criança, a ver em mim uma bondade que não tenho, a supor-me virtuosa e piedosa, a ler toda aquela situação à luz de uma cultura tão distante da minha... hesitei, mas achei que era o momento certo para estimular o espírito crítico da menina.

"Olha, não sei, depende. Se o terreno fosse meu e eu precisasse dele, por exemplo, para fazer uma casa para o meu filho, tinha de conversar convosco para arranjar uma solução, não é? "

Toda a expressão facial dela mudou. Durante uns instantes, sei que ela seguiu o meu raciocínio e aquilo lhe fez sentido.

"Nós não sabemos se a senhora precisa da terra, ou de vendê-la para ganhar dinheiro para qualquer coisa que lhe faça falta, sei lá..."

Disparatou.
"Ah! Precisa, precisa! Precisa agora! Ela é rica! Num lhe interessa nada; nós é que temos de ir viver para outro sítio ou levam o meu pai para a prisão...onde é que já se viu? C'os seus mortos!"

Mas eu sei. Que, durante uns segundos, houve ali uma centelha que brilhou. Ela viu as coisas de outra perspectiva e ouviu-me. Foram precisos muitos meses  para que me ouvisse desta forma, mas consegui.

Hoje, não me queriam deixar partir. Agarradas a mim  como se sempre tivesse sido fácil. Não foi. Tive de bater o pé, muitas vezes. Dar com uma mão e tirar com outra. 

Guardo no coração aquelas histórias difíceis e sinto orgulho no trabalho que desenvolveram, desenvolvemos.

Para mim, confirmação da grande aprendizagem de vida que me serve pessoal e profissionalmente: Todos andamos no mundo à procura de validação. Se respeitarmos e validarmos o outro, seremos respeitados também.  

Depois de um ano a ouvir pragas - Uma benção, neste recado que transcrevo: 
" O mais engraçado foi não ter precisado de um beijo para gostar tanto de si!
O Espírito do senhor sempre a conduzirá, segure na mão dele e vai!"





segunda-feira, 19 de junho de 2017

Fogo que arde PARA se ver

Resultado de imagem para luto símboloChamar-lhe incêndio é insuficiente.
A tragédia de Pedrogão.

Incontornável, a chamar-nos à realidade 

de uma nação florestal que há anos arde no seu próprio lume

de um território arborizado e a mato, em que os meios de Prevenção são insuficientes ou ineficientes ou ambos

de um país cujo interior é desertificado e, consequentemente, mais vulnerável

Mas, também e acima de tudo, que a tragédia de Pedrogão.
nos chame à realidade pungente

de corpos de intervenção incansáveis,
que arriscam e dão a sua vida para salvar outras

de uma sociedade civil solidária e pro-activa
que não se limita a sofrer em frente à televisão,
mas que age, que se une, que se move
(este fogo de camões
esta paixão)
este fogo interno que nos arde cá dentro sem se ver
mas que nos move, nos impele, nos faz aguerridos, destemidos,
todos nós, padeiras de aljubarrotas, nas crises
a arregaçar as mangas da nossa portugalidade
de altruísmo e vontade que leva tudo à frente.

de instituições que respondem,
acolhem e afagam sobreviventes e desprotegidos
pavilhões que se abrem
mantimentos que se distribuem
abraços que se dão

de equipas médicas e técnicos e psicólogos
que ali estão, como podem, para sarar feridas - por dentro e por fora

de empresas e cidadãos anónimos
que contribuem com donativos,
boa vontade e braços para trabalhar.
(toneladas de águas e bebidas, caixotes de fruta, pilhas de alimentos para armazenar e distribuir - muitas horas de trabalho e mãos disponíveis para ajudar).

de escolas
que abrem de novo os portões, no rescaldo (ou antes dele)
para que as crianças retomem o seu quotidiano
ou, pelo menos, sejam afastadas dos "teatros de operações"
termo que vem dos cenários de guerra e designa o ambiente das trincheiras.

Comove-me que a escola se tenha proposto abrir as portas da paz para as crianças.
Talvez por ser professora me tenha tocado muito este gesto. Nem sei expressar bem isto.
Abrir a Escola. Para as crianças. Se refugiarem do caos. Voltarem a estar juntas. Em paz.

Ou seja, bombardeada com relatos e imagens dramáticas, desejo sublinhar os traços de humanismo, boa-vontade, solidariedade e esperança que coei de tudo o que vi e ouvi.

Quanto ao fogo, que a tragédia de Pedrogão - aquele inferno absurdo e sem sentido com tantas vítimas a lamentar- marque um ponto final neste rastilho em que ardemos há décadas.



sábado, 17 de junho de 2017

Festival Literário de Bragança


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Em primeiríssimo lugar, louvar a iniciativa; ponto final.

Programa aqui.

Estive no curso "Literatura e Imaginação", com Gonçalo M. Tavares; um exercício interessante e gratuito. Um privilégio, portanto.

Por mais que pareça infrutífero e dispendioso apostar em eventos culturais deste calibre, que depois parecem não corresponder ao nível das plateias semi vazias; há ter em conta que:
1) a captação de públicos leva tempo a sedimentar-se;
2) festivais literários sempre foram e sempre serão eventos para um nicho bem definido e, regra geral, restrito.
Por tudo isso, organizadores, pessoas a cargo, entidades impulsionadoras e patrocínios... há que insistir. 

Críticas... aos de fora.
Senhores escritores e senhoras escritoras pagos-para-cá-virem, convidados, não generalizando (porque não foram todos), mas também não particularizando a questão:
NÃO vos fica bem desdenharem da cidade-hospitaleira, gracejarem num tom jocoso-condescendente que "Do Tejo para cima não conhecem nada..." ou terem perguntado "Como é que eu vou para aí?"; apetece responder venha de barco, ou a nado, ou se achar cansativo venha de burro, que ainda é o nosso único meio de transporte.
Lamento, mas não vos fica bem. Eu, que até nem sou de cá, e me considero uma mente arejada e viajada, desgostei desse cosmopolitismo balofo, a roçar o verdadeiro provincianismo. Vieram falar-nos das grandes viagens que fizeram para se "inspirarem" para escrever e demonstraram um profundo desconhecimento do nosso país, o que me parece uma afronta à própria Portugalidade que vieram defender.
Enfim, será percepção minha. Acredito que a humildade é virtude dos mais sábios. E acredito que a verdadeira literatura é universal. Por isso pode ter raízes numa tribo primitiva num qualquer ilhéu recôndito do mundo, ou na vizinha do 5ºesquerdo, ou no Afeganistão ou em Freixo-de-Espada-à-Cinta. A essência humana com que labora a arte é semelhante no mundo inteiro.

Destaco Inês Pedrosa. Simplicidade e larga experiência não só como escritora e jornalista, mas como pessoana e directora da Casa de Pessoa. Uma conversa aprazível, despretensiosa e rica, a fechar com chave de ouro este certame.

Parabéns pela iniciativa!

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Algo de errado

Na turminha das ciganas  elas não deixam de se abismar com a minha...magreza(?!)
Suponho que as mulheres adultas com quem lidam são todas mais cheias do que eu. 
Passaram o ano  a surpreender-se. Eu tirava um casaco e aí vinha um "tem a cintura tão fininha" ou um "está tão magrinha..."; não interessa. O meu ponto é: para elas algo de errado se passa comigo! 
Hoje perguntaram-me quanto pesava 
("lá vamos nós outra vez, pensei)
e, de imediato,
se tinha algum "mali"
"Como assim?"
"Tem alguma doença?"
"Penso que não; já sou eu assim há muitos anos, saio aos meus pais..."
tentei rematar a conversa para avançar
"Então deve ter algum mali, botaram-lhe os olhos ou assim"
E logo outra:
"Podia ser ruindade mas a senhora é boazinha, por isso foi pósto (mau olhado, suponho)"

Era um litrinho de água benta para estas bandas, por favor... a ver se eu engordo!

sábado, 3 de junho de 2017

A geração cuidadora

Hoje venho falar para ti, mulher cuidadora, submersa pelas obrigações da maternidade de descendentes e ascendentes.
Estás naquela fase da vida entalada entre seres mãe dos teus filhos e mãe dos teus pais. 
Desdobras-te em múltiplas e sentes que falhas, que não és omnipotente, nem consegues apagar os fogos todos de uma vez. 
Queres ajudar, multiplicas gestos, atenções e afectos, mas por mais que faças nunca sentes que és suficiente. Mas, sim, és.
Quando atendes os teus pais queridos, na fragilidade da sua velhice, na autonomia que o tempo roubou, estás à altura. Os ossos frágeis, a memória que falha, os movimentos lentos, as contrariedades do corpo gasto pela vida, a natural decadência a que a passagem do tempo indubitavelmente nos destina têm eco na tua presença, nos teus cuidados, no teu afecto. 
Vê se me entendes, nunca falhas, nem que falhes. 
Sentes que a tua presença aos teus pais rouba presença aos teus filhos, mas é uma equação impossível ou de resolução difícil, pelo menos, no teu íntimo, se assim a colocares.
 Escuta, sossega! A ausência que te pesa na alma é um legado aos teus filhos. Vão crescer percebendo que amaste e acompanhaste quem amavas até ao limite das tuas forças. Vão crescer nessa partilha. Maturar em humanismo e atenção ao outro. Vão aprender a descentrar-se; isso é tão raro nos dias de hoje e uma aprendizagem vital; talvez o melhor legado que lhes deixarás.
Quando a balança pesa ao contrário, saberão os teus pais que te educaram para seres uma excelente mãe, que está ao lado dos filhos e assume sempre essa responsabilidade.
Agora... não é fácil, não.
Esta geração cuidadora, entalada entre avós e netos, quando se assume como tal, é um exemplo de dignidade humana e altruísmo. Muitas há, da tua idade, que o não cumprem. Arrumam tudo em instituições e vão à vida, sem problemas de consciência. Os filhos na escola, que agora, convenientemente, até é a tempo inteiro; os pais nos lares, que "estão lá tão bem". Depositam a carga e vivem mais leves.
Tu, não. Vê-se-te nos papos dos olhos a exaustão premente. Profunda e pesada. Compreendo-te.
Vejo o que te propões fazer e, digo-te, é, no mínimo, hercúleo.
Para seres cuidadora tens de cuidar-te também. Arranjar "espaço", bolhas de oxigénio. Inspira, expira - renova a tua força e procura apoios. Não tens de fazer tudo sozinha. Cuidares de ti é essencial para cuidares de todos os que amas. Essencial.