sábado, 28 de janeiro de 2017

Cinco minutos de aula

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Segunda de manhã.
Costuma ser um dia difícil, porque foi fim de semana e a maior parte dos meninos desta turma está institucionalizada. Portanto, quer tenha havido visitas, quer não; quer tenham ido a casa, quer tenham ficado na casa; sinto-os sempre mais agitados nesta do que na outra aula da semana.
Assomo à porta da sala de aula.

Imagem relacionadaO Eduardinho  já está no chão, sentado num canto, abraçado a si mesmo, a choramingar. Com alguma insistência minha senta-se numa cadeira e logo ali sei que vai passar a aula toda a baloiçar-se, para a frente e para trás. Desconfio que lê apenas silabicamente e não tem motricidade para escrever ao ritmo dos outros, portanto, quase não trabalha, até porque, metade do tempo está em conflito com eles. Por causa de uma caneta. Ou de um lápis. Ou qualquer coisa assim. Agora nem sei o que foi - quando entrei já estava perturbado...

O Tomás, muito carregadinho de verde no nariz, quase nem me deixa entrar, vem a correr, pendura-se em mim, sempre a guinchar, deixe-me ser eu, deixe-me ser eu, deixe-me ser eu a ver os trabalhos de casa.
Ainda tento acalmá-lo, mas sei que é um menino NEE e que é difícil demovê-lo quando tem uma ideia fixa. Se o contrariar, não trabalha a aula toda. Tento explicar-lhe que seguimos uma ordem e que hoje não é a vez dele, sempre a ser interrompida por: deixa-me? deixa-me? enquanto tento explicar-lhe que temos de escrever o sumário primeiro e depois se verá de quem é a vez.
 Deixa-me? deixa-me? Nenhum dos outros parece remotamente interessado na aula, nem parece querer disputar tal privilégio, pelo que permito ao Tomás que vá verificar o TPC, como deseja.

Entretanto, antes mesmo de chegar à minha secretária, vozes que se levantam,um empurrão contra uma mesa e uma cadeira que tomba. Oiço: Te nasça um garrotilho na cabeça... Só tenho tempo de pousar a pasta e correr a apartar dois lá ao fundo. Ameaçam-se e rogam-se pragas de etnia, que ao início estranhava, mas agora já reconheço. "C'os teus mortos" e "Havia de te cortar a cabeça c’más casnás (galinhas)". Estou farta de ouvir dizer estas coisas, cada vez que se zangam uns com os outros; mas de cada vez que os oiço provoca-me um arrepio. É perturbador.


Resultado de imagem para students fighting, clipartChego a tempo de levar com a ponta afiada de um lápis numa mão. Agressão de que não era alvo, mas meti-me no meio. Pedem-me desculpa, tratam-me com deferência. "Não era para a senhora, era para aquele filho de um demo!"
Aqui não falamos assim uns com os outros, vamos acalmar, cada um para o seu lugar.
Fico por ali, num compasso de espera, até que serenem. Vou passando um chá. Escutam-me, algo envergonhados, porque me estimam e sabem que me desiludem.
Ânimos amainados. Pego na pasta, chego, enfim, à minha secretária.


O Alfredo e a Suzete trocam impressões sobre as precárias dos familiares, o padrinho de um, o padrasto da outra. Um deseja a vinda, a outra não. Espera que lhe proíbam a saída, porque era mau e bebia muito e agora o namorado da minha mãe é muito meu amigo. Ouço muito mais do que gostaria enquanto tiro os meus materiais da pasta - eu que até sou muito rápida a fazê-lo.

Dirijo-me ao quadro branco e digo-lhes amavelmente vamos lá trabalhar. As canetas estão tão frias que parecem não querer escrever. Como eles, penso. Abro a lição e vou dizendo, mornamente, Come on, kids! Let's work! Tomás get you notebook, anda! Julia sit down and copy the summary! Vamos lá pessoal!

Faltam dois.
Resultado de imagem para hyperactive kid in class, clipartO Gabriel mora na barraca ao lado da escola, mas é sempre o último a chegar; antes das nove e vinte não lhe ponho a vista em cima. Depois, quando chega, desestabilizando os outros todos com calduços nos pescoços até chegar ao seu lugar e comentários em alta voz sobre o fim de semana, ainda vai à funcionária tomar as gotas. Quando regressa, volta o reboliço. Leva uns bons dez minutos a sossegar, com muita insistência minha e as gotas a começarem a afagar a hiperactividade.


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A Laurinda também não está. Eles dizem-me, aos gritos e em disputa ( a ver quem grita mais alto e me dá as novidades) que ela foi ter com a Dona Eufémia, a funcionária, para pôr o champô. Dos piolhos. Aparecerá quinze minutos antes da aula terminar com a touca na cabeça e um cheiro pestilento, pretexto para os outros todos deixarem de trabalhar outra vez, se é que entretanto já haviam começado...


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Assistentes operacionais

Resultado de imagem para school canteen employee, clipartDe contínuos a funcionários, passaram por nomes mais pomposos como auxiliares educativos; agora têm uma designação mais técnica- são assistentes operacionais, seja lá isso o que for. 

De qualquer forma desempenham funções fundamentais nas escolas. São recursos escassos, claramente insuficientes, e precários. 

Adivinha-se uma greve, dia de 3 de Fevereiro, justa, a meu ver, mas talvez não tão eficaz quanto seria desejável. Receio que a maioria não possa dar-se ao luxo de um dia de greve, dadas as remunerações exíguas e, por conseguinte, talvez não haja a adesão necessária para se conseguir o real impacto dessa greve. Se parassem em massa, a sociedade parava. Asseguram que a escola funcione enquanto os encarregados de educação trabalham.

Se os encarregados de educação sonhassem o que se passa nas escolas certamente haveria muita instituição fechada a cadeado e muita manif na rua. Penso que, na generalidade, deixam lá ficar os filhos de manhã, voltam ao fim do dia, e reclamam, se assim entenderem. 

Terão noção de como é difícil manter uma escola limpa, segura e funcional? 
Fechar portas para que nada seja roubado nos intervalos;
vigiar que os meninos não se matem no recreio, onde a euforia de estar "à solta" os põe, potencialmente, mais em risco;
impedir que atirem o lanche ao lixo com a pressa de ir brincar;
evitar que se engalfinhem quando perdem o jogo;
curar os arranhões das brincadeiras;
enxugar lágrimas de dor, mimo, saudades ou arrelias;
aparar birras;
detectar olhos brilhantes e testas quentes de febre;
lidar com todos os tímidos, os agressivos e os agredidos,  os autistas, os hiperactivos, os  malandros e os mal educados... todos ao mesmo tempo (e sem formação específica para o efeito);
assegurar  que as casas de banho não se tornam fossas logo no primeiro intervalo;
garantir que ingiram alguma coisa na hora do almoço, pelo menos a sopa, e que a cantina não se torne um campo de batalha com alimentos a voar de mesa em mesa...
enfim, a empreitada é hercúlea!

E isso tudo em rácios absurdos, nem sempre respeitados, carradas de crianças para poucos adultos. Ninguém reclama, ninguém reivindica, mas se algo de errado acontece serão os poucos em funções que terão de responder... 

O ministério anunciou a colocação de uma mão cheinha de assistentes operacionais, migalhinhas para tapar o sol com a peneira, podia eu falar tanto acerca disso...Quando despejam para a escola os enjeitados sociais, vindos do fundo de desemprego, pessoas sem o mínimo perfil para trabalhar com crianças, enfim, repito: não sei como os pais mandam vir com tanta coisa e deixam passar outra tanta!

Ainda por cima não é um processo célere. Os próprios directores das escolas se queixam de um "calvário concursal"... Mesmo após o aval ministerial, há uma série de procedimentos que levam vários (demasiados) dias úteis até que alguém aterre na escola para cuidar dos nossos manelitos e margaridas.

E enquanto não, passo por uma encarregada de educação a tirar satisfações com uma "assistente operacional", a reclamar por ter obrigado o menino a comer a sopa...

sábado, 21 de janeiro de 2017

Medicina Digital

Resultado de imagem para digital medicine, clipart Ontem de manhã, a caminho das escolas (a deles e a minha) ouvi na rádio que o Ministério da Saúde havia emanado algumas directrizes inovadoras no âmbito das práticas clínicas. 

Pareceram-me boas ideias, capazes de agilizar processos e poupar umas toneladas de papel ao meio ambiente... se não se ficarem por doces boas intenções de papel. A ver vamos.

Aparentemente vamos poder receber as prescrições do nosso médico de família por SMS no telemóvel para depois apresentar na farmácia. Nada a obstar, sempre nos escusa aquele "saltinho" ao Centro de Saúde para pedir ou renovar receitas. É capaz de aliviar, pelo menos, os administrativos e, sem dúvida elimina PAPEL.

Os exames clínicos deixarão de ser impressos. Poupar-se-ão algumas árvores também.

E pronto - é isto. Eu sei que o post tem um título pomposo, a adivinhar que eu me expandisse sobre cirurgias à distância ou a importância da robótica e da tecnologia em geral nos procedimentos clínicos actuais, mas lamento desiludir-vos. Hoje eram mesmo só estas novidades comezinhas de papel.


terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Resoluções de Ano Novo


Estamos a chegar àquela altura do ano em que as boas intenções começam a soçobrar e as Resoluções de Ano Novo a cair por terra, não é amigas?

Ou é a dieta que já vai para a terceira semana, ou a inscrição no ginásio, que, assim como assim, fica para Fevereiro, ou todas aquelas mudanças radicais-desta-vez-é-que-é, planos mirabulásticos que começam a gorar...

Sabem que mais? Faz parte.
Antes de se começarem a auto-flagelar desumanamente recordem que errare humanum est e que o problema, se falharam, não foi falhar. O problema é a perspectiva, quer dizer, estar a ver mal o filme.
Tudo na vida é uma questão de:
1) expectativas;
2) persistência.

1) Será que falhou logo na fonte? Quer dizer, se as expectativas forem demasiado altas, dificilmente as conseguiremos atingir. Um gajo que toda a vida foi agarrado, não se vai propor fazer doações milionárias, todos os dias, para todas as Misericórdias do Distrito... nem a tipa que acumulou tralha durante quatro décadas, vai ter a casa aparentável, tipo deco de revista, de um dia para o outro...

2) Não basta ter determinação, é preciso ser consistente, coerente e persistente. A mudança, seja a que nível for, é um processo. Vai-se fazendo. Um passo atrás não é uma derrota - é ganhar balanço para andar para a frente. Recaídas em velhos hábitos fazem parte, importa é retomar e sublinho a palavra, o processo.


A gente quer ser melhor.
Quer tornar-se melhor.
De maneiras que a gente investe no contra o Ano Novo com as boas intenções todas, que, é sabido, entopem o inferno.
Como se, com as doze badaladas da noite de 31, na passagem do ponteiro naquele ínfimo pedacinho de segundo, a realidade toda se alterasse e um admirável mundo novo estivesse ali à nossa espera...  A absurda discrepância de tão exacerbadas expectativas só se perdoa, de facto, porque, por norma, quando formulamos as ditas Resoluções já não estamos muito sóbrios...

Resultado:
O doce desfiar dos dias de Janeiro pode percepcionar-se como verdadeiramente decepcionante.
Encontrámos uma amiga que nos diz "Bem que me investi de Ano Novo, Vida Nova...mas o ano começa e está tudo na mesma..."

Foco, para usar uma palavra que está muito na moda e como isto hoje está a sair assim estilo livro de auto-ajuda. (LOL)
Manter o foco, gente. Ah, e já agora, se nós não mudarmos nada, o Ano Novo, apesar de ter doze meses por sua conta, não tem tempo para tudo... não dá conta do recado!

Para além do mais, se a gente cumprisse aquela lista toda, atingíamos a perfeição e para o ano não havia nada a aperfeiçoar...

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